Bento encontrou a pulseira brilhante debaixo do travesseiro de Tico quando foi arrumar a cama. A criança tinha escondido o presente ali depois que Caio saiu. Ele já desconfiava que algo tinha acontecido na visita, mas aquilo confirmava o pior. O que ele ainda não sabia era que o resultado do segundo exame ia mudar tudo de novo.
A pulseira que Tico escondeu
Bento segurou o objeto por um tempo, girando no dedo. Era fina, de ouro, com uma plaquinha pequena. O nome gravado era só “Tico”. Ele chamou Melina do outro cômodo.
— De onde veio isso?
Melina parou na porta da cozinha, secando as mãos no pano. Olhou para o chão antes de responder.
— Caio deu pra ele. Foi rápido, quando você ainda não tinha chegado.
Bento jogou a pulseira em cima da cama. A voz saiu baixa, mas cortada.
— E você deixou.
O que Melina não contou
Ela sentou na beirada do colchão, tentando explicar sem parecer que estava pedindo desculpa. Disse que Caio precisava conhecer o menino caso fosse o pai. Que não tinha sido nada demais, só um encontro de meia hora no quintal. Bento escutou tudo em silêncio. Quando ela parou, ele repetiu a frase que tinha guardado o dia todo.
— Você deixou ele dar presente pro meu filho sem me avisar.
Melina se levantou. A voz dela subiu um tom.
— Ele pode ser o pai de verdade. Precisa saber como a criança é.
Bento olhou para a pulseira de novo. Pensou na casa pequena, no salário de pedreiro, na conta de luz que estava atrasada. Sentiu que estava sendo trocado por alguém que podia pagar escola particular e médico particular.
A briga na sala
Caio apareceu na porta da frente meia hora depois. Disse que só queria deixar um recado sobre o exame marcado. Bento não deixou ele entrar. Os dois ficaram na calçada, a voz subindo aos poucos. Tico apareceu na janela do quarto, espiando entre as cortinas.
Bento apontou para a pulseira que agora estava na mão dele.
— Ele pode comprar brinquedo, escola e o bairro inteiro. O lugar que eu tenho no coração desse menino não está à venda.
Tico abriu a janela e gritou baixo, quase chorando.
— Para de brigar. Os dois são meus pais?
Melina puxou o menino para dentro. A porta bateu. Caio ficou na calçada mais um minuto, depois foi embora de carro.
O laudo que chegou na clínica
Dr. Laranjo recebeu o envelope do laboratório às cinco da tarde. Abriu no computador, comparando os marcadores do exame de Caio com o de Tico. Os números não batiam em nenhum ponto importante. Ele leu duas vezes, depois olhou para o arquivo antigo que tinha guardado na gaveta. A incompatibilidade era clara. Ele pegou o telefone, pensou em ligar para Melina, mas guardou o aparelho de volta. Ainda precisava checar os registros da noite do nascimento. Algo não fechava ali também.
