O carro preto parou em frente ao sobrado da Mooca. Caio desceu devagar, olhando para a porta como se já soubesse que ia entrar. Melina viu da janela e sentiu o estômago gelar. Disputa pela paternidade era coisa que ela queria manter longe de casa, mas agora o homem que podia ser pai de Tico estava ali.
O carro preto na calçada
Caio bateu na porta duas vezes, curto e firme. Quando Melina abriu, ele sorriu de lado, aquele jeito que ela lembrava bem demais. Ela ficou na soleira, sem dar espaço.
— Preciso ver o menino — disse ele baixo. — Só isso.
Melina apertou a maçaneta. Sabia que precisava dele para o segundo exame, mas odiava a forma como ele olhava para dentro da casa, como se já fosse dele.
A conversa que ela evitava
Eles entraram na sala pequena. Tico estava no chão, brincando com carrinhos. Caio parou ao lado do sofá, mãos nos bolsos, olhando o filho sem saber ainda se era mesmo dele.
Melina serviu água, só para ter o que fazer. Ela já desconfiava que a atração não tinha ido embora, mas guardou isso para si. Falou do exame, do prazo, da necessidade de resolver logo. Caio concordou, mas não tirava os olhos dela.
Você pode ter criado o menino, mas se ele tiver meu sangue, eu não vou pedir licença para ser pai.
A volta de Bento
Bento apareceu na porta sem aviso. Viu o carro primeiro, depois Caio dentro de casa. Parou no meio da sala, a sacola de ferramentas ainda na mão. O silêncio caiu pesado.
— O que ele faz aqui? — perguntou, voz baixa e tensa.
Caio não se mexeu. Melina deu um passo à frente, tentando explicar. Bento olhou para Tico, que continuava brincando, alheio. Em menos de um minuto tudo que ele temia estava ali, vivo, respirando na sala dele.
Bento exigiu o segundo DNA na hora. Caio aceitou sem hesitar. Antes de sair, entregou a pulseira para Tico, rápido, quase sem Melina ver. O menino guardou no bolso do pijama. Quando o carro preto se afastou, Bento ficou olhando a rua vazia, sentindo que a casa já não era mais só dele.
