Clara empurrou a porta da casa antiga e sentiu o cheiro de mofo misturado com o de baunilha que ainda parecia preso nas paredes. Ela sabia que Beatriz já estava atrás da carta. O que ela ainda não sabia era que encontrar o envelope mudaria o rumo de tudo antes mesmo da festa da confeitaria.
A volta à casa da mãe
Clara parou na cozinha. O azulejo azul perto do fogão estava solto de novo. Ela puxou com cuidado e o pedaço de cerâmica caiu no chão com um barulho seco. Atrás dele apareceu um buraco pequeno, escuro. Ela enfiou os dedos e tocou em algo de papel.
O envelope estava amarelado, dobrado com força para caber no espaço. Clara o tirou devagar, sentindo o coração bater mais forte. Ela já desconfiava que a mãe tinha escondido alguma coisa, mas nunca imaginou que seria ali.
A carta dentro da parede
Ela sentou no chão frio e abriu o envelope. A letra da mãe era firme, mesmo depois de tanto tempo. Lia devagar, parando em cada linha. A carta falava de Augusto Valença e de um acordo que ele tinha feito antes de morrer. Falava também de uma parte da confeitaria que devia pertencer a Clara por direito.
Seu pai não te abandonou; fizeram você desaparecer.
Clara leu a frase duas vezes. As mãos tremeram um pouco. Ela guardou a carta no bolso e ficou olhando para o buraco na parede. Precisava mostrar aquilo para alguém antes que Beatriz conseguisse apagar tudo.
O que Rafael encontrou
Rafael ligou mais tarde, voz baixa. Ele tinha ido ao cartório depois que Clara contou sobre a carta. Encontrou menção a um testamento complementar que ninguém nunca registrou direito. A voz dele soava cansada quando disse que ia continuar procurando, mesmo sabendo que a mãe descobriria.
Daniel apareceu na porta da casa velha no fim da tarde. Ele não entrou. Ficou no quintal, olhando para o chão. Disse que Beatriz já sabia do envelope e que estava mandando alguém vigiar o lugar. Clara não respondeu. Só fechou a porta devagar.
Antes de sair, Clara olhou de novo para a parede remendada. A festa de aniversário da Confeitaria Valença ia acontecer em dois dias. Ela pensou em levar a carta, mas ainda não sabia como. Rafael mandou uma mensagem simples: “Amanhã a gente decide o que fazer.”
