Clara estacionou no canto mais afastado do shopping. O relógio marcava quase dez da noite. Ela só queria um lugar quieto pra pensar no panfleto que guardara na bolsa. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
A briga dentro do carro
Isadora e Daniel estavam no banco de trás de um carro preto. O anel de noivado dela rolou pelo assoalho quando ela tirou a mão dele do braço. Daniel exigia o resto do dinheiro. Isadora repetia que precisava de mais tempo. A voz dela saía baixa, mas cortante.
— Você prometeu que ninguém ia saber — disse ela.
— E eu cumpri. Mas a Beatriz ainda não pagou tudo — respondeu Daniel, olhando pro retrovisor.
Clara chega sem querer
Clara desceu do carro devagar. Reconheceu o veículo de Isadora. A curiosidade pesou mais que o cansaço. Ela se aproximou devagar, os passos abafados pelo asfalto molhado. Se fosse só uma conversa de trabalho, por que o carro estava escuro?
Do vidro entreaberto veio a voz do irmão. Clara parou. O coração deu um salto quando viu Isadora inclinar o corpo e beijar Daniel na boca. O beijo durou segundos, mas bastou.
Você não traiu só meu caderno, Daniel; traiu o nosso sangue.
A confissão que mudou tudo
Clara abriu a porta do carro antes que pensasse duas vezes. Os dois se afastaram rápido. Isadora segurou o anel no colo. Daniel ficou branco. Nenhum dos dois conseguiu falar primeiro.
— Eu vi — disse Clara. A voz saiu firme, mas as mãos tremiam. — Você vendeu as páginas pra ela.
Daniel olhou pro chão. Depois pra irmã. Admitiu que tinha fotografado o caderno inteiro. Disse que Beatriz pagava bem, mas que o interesse dela nunca tinha sido só nas receitas. A mãe deles guardara uma carta. Beatriz queria exatamente aquilo.
Clara ficou em silêncio um tempo. O estacionamento parecia maior. Daniel não sabia onde a carta estava, só que a mãe tinha escondido em algum lugar da casa antiga. Ele jurou que não contara pra Isadora. Disse que queria pagar as dívidas e sumir.
Isadora saiu do carro sem olhar pra trás. O anel ficou no tapete. Daniel ficou sentado, olhando pro nada. Clara fechou a porta devagar. Não chorou ali. Guardou tudo pra depois.
Enquanto voltava pro carro, pensou na casa da mãe. Lembrou do azulejo solto na cozinha. Talvez valesse a pena olhar de novo antes que Beatriz descobrisse alguma coisa. O panfleto na bolsa pareceu mais pesado.
