Beto amarrou o tênis velho na praça ainda escura. Lena ajustou o relógio no pulso e olhou para o banco ao lado, onde um par de tênis abandonado estava jogado. Eles tinham feito o pacto na véspera, depois do susto na lanchonete. O que Lena ainda não sabia era que a primeira comparação já esperava por eles ali.
A caminhada que parecia igual
O sol mal tinha nascido quando começaram a andar. Beto ia mais rápido, parava para esperar. Lena tentava manter o ritmo sem reclamar. O ar estava fresco, mas o silêncio entre os dois parecia cheio de coisas que nenhum queria dizer.
Depois de vinte minutos, Dona Dalva apareceu na calçada com uma sacola. — Vim trazer pão com manteiga, porque sei que vocês vão precisar de força — disse ela, rindo baixo. Beto parou e olhou para a sacola. Lena apertou o passo para não parar.
A avaliação que mudou o ritmo
Três dias depois, na cozinha, eles se pesaram. Beto tinha perdido dois quilos. Lena, meio. Ela ficou olhando o visor da balança como se tivesse lido errado. Beto sorriu, abriu os braços. — A gente prometeu mudar junto, não disputar quem muda primeiro — disse Lena, mas a voz saiu baixa.
Beto abraçou ela rápido, já falando de voltar à praça no dia seguinte. Lena sorriu de volta. Quando ele saiu para abrir a lanchonete, ela ficou parada na frente da balança de novo. O número não tinha mudado só na cabeça dela.
O que sobrou depois que ele saiu
Em casa sozinha, Lena abriu a geladeira e fechou de novo. A lasanha que Dona Dalva tinha deixado ainda estava lá. Ela pensou no pacto, pensou no sorriso de Beto quando viu o resultado. A casa bagunçada parecia ainda maior agora que o silêncio não tinha mais ninguém para preencher.
Antes de sair para encontrar o marido no trabalho, Lena guardou o tênis no armário e olhou para o banco vazio da praça pela janela. Beto já comentava com os clientes sobre o peso que tinha perdido. Lena ouviu de longe e sentiu o primeiro aperto no peito que não era fome.
