Beto ajustou a camiseta velha atrás do balcão da lanchonete e sentiu o tecido mais folgado nos ombros. Era só o almoço de sempre, mas algo parecia diferente. Lena lavava pratos do outro lado e olhava de relance, sem conseguir dizer o que sentia. O que ela ainda não sabia era que o elogio que viria ia ficar preso ali, entre os dois, por muito tempo.
O almoço que mudou o ritmo
A lanchonete estava cheia como sempre no meio do dia. Beto servia pratos com a mesma rapidez de sempre, mas reparava quando alguém parava um pouco mais para olhar. A camiseta antiga marcava menos a barriga agora. Ele gostava da sensação, mesmo sem admitir em voz alta.
Lena trouxe mais copos e parou ao lado dele. Ela sorriu, mas o sorriso demorou um segundo a mais para chegar. Beto devolveu o sorriso rápido, como quem tem pressa de voltar para o que estava fazendo.
A cliente que reparou
Uma mulher de meia-idade pediu o prato do dia e ficou olhando Beto enquanto ele montava a marmita. “Você está diferente”, disse ela, sem rodeio. “Perdeu peso, né? Tá com cara de quem tá cuidando da saúde.”
Beto riu, meio sem graça. “Tô tentando.” A mulher pediu o contato dele depois, disse que queria indicar pra um primo que também precisava de ajuda. Lena ouviu de longe, enxugando as mãos no pano.
Outra cliente chegou logo depois e repetiu quase a mesma coisa. Falou que Beto parecia mais animado. Ela nunca tinha visto ninguém sorrir daquele jeito pra ele antes.
O que ficou na mesa
Quando o movimento diminuiu, Beto sentou um minuto para comer. Lena trouxe o prato dele e ficou em pé, encostada na parede. Ele mastigava devagar, ainda com o elogio na cabeça.
“Quando você era gordo, ninguém sorria desse jeito pra você”, disse Lena, baixa. As palavras saíram sem ela planejar. Beto levantou o olhar, surpreso. O prato continuou ali, esfriando entre os dois.
Ele não respondeu de imediato. Apenas arrumou o garfo no prato e olhou para a porta da lanchonete. Mayra Vasconcelos entrou nesse momento, com o celular na mão e o olhar já avaliando o espaço. Ela parou perto do balcão, como quem reconhece uma oportunidade que ainda nem começou.
