Elisa olhava o bilhete amassado sobre a mesa da cozinha rachada. Ricardo tinha chegado suado, dizendo que o número tinha batido. Caio corria entre as cadeiras, repetindo que agora ia ter comida de verdade. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
O bilhete sobre a mesa
Ricardo colocou o bilhete de novo na mesa, como se precisasse ver os números de perto. Elisa secou as mãos no pano de prato e se aproximou. O papel estava molhado de suor. Caio parou de pular só para olhar a mesa de cima.
— De quanto é? — perguntou ela baixinho.
Ricardo não respondeu logo. Ficou olhando o bilhete, depois olhou para o filho, depois para a esposa. O silêncio durou mais do que devia.
A mala que ele começou a arrumar
Elisa foi até o armário pegar um saco para guardar o bilhete. Quando virou, viu Ricardo pegando a mala velha debaixo da cama. Ele abriu o zíper devagar, como quem já tinha decidido o que fazer. Caio parou na porta do quarto, sem entender.
— Ricardo, o que você está fazendo? — ela perguntou.
Ele não parou de colocar as poucas camisas que tinha. Falou sem olhar para ela: A gente não ganhou nada, Elisa. Quem ganhou fui eu.
Elisa ficou parada, o saco ainda na mão. Caio apertou o corrimão da cama. Ricardo fechou a mala com um puxão.
O carro que parou na frente
Do lado de fora, um motor parou. Elisa foi até a janela rachada. Um carro preto, daqueles que nunca passam por ali, estava parado na rua de terra. A porta se abriu. Uma mulher de salto alto desceu e chamou pelo nome dele, como quem já sabia que ele estava pronto.
Ricardo pegou a mala e passou por Elisa sem tocar nela. Caio correu atrás, chamando o pai. Na porta, Ricardo parou só um segundo, olhou para os dois e saiu. O carro ligou de novo. Elisa ficou na janela, ouvindo o som dos pneus na poça.
