O carro preto parou na rua de terra e o salto de Vanessa desceu primeiro, parando ao lado da mala velha de Ricardo. Elisa viu tudo da porta, com Caio agarrado na perna dela. Ela ainda não entendia quem era aquela mulher nem por que Ricardo estava jogando as coisas no porta-malas sem dizer uma palavra.
A mulher no carro preto
Vanessa ajustou a bolsa no ombro e ficou olhando para a casa como se o lugar cheirasse mal. Ricardo fechou o porta-malas com força e não olhou para trás. Elisa desceu os dois degraus e parou no meio da rua.
— Quem é você? — perguntou, a voz saindo mais baixa do que queria.
Vanessa nem respondeu. Só virou o rosto para Ricardo, esperando que ele resolvesse logo. O motor ficou ligado, soltando um barulho baixo e caro.
A confissão na frente do filho
Ricardo passou a mão no cabelo e encarou o chão antes de falar. Disse que vinha conversando com Vanessa fazia meses, desde antes do prêmio sair. Que o bilhete era dele e ele ia usar o dinheiro pra recomeçar de verdade.
Elisa sentiu o chão duro embaixo dos pés. Caio apertou mais a perna dela. Ricardo pegou a última sacola e jogou dentro do carro.
Eu não fiquei rico para continuar casado com a minha miséria.
Ele entrou no banco de trás sem fechar a porta direito. Vanessa subiu do outro lado e o carro arrancou. A roda dianteira passou por uma poça funda e jogou lama até a altura do joelho de Elisa.
O que sobrou na rua
Caio limpou o rosto com a mão suja e olhou para a mãe. Perguntou, baixinho, como os dois iam comer agora. Elisa ficou parada mais um minuto, sentindo a lama secando na pele. Depois entrou, tirou o short velho do armário e saiu para procurar trabalho ainda naquela tarde. O depósito de Arnaldo ficava a quatro quadras. Ela não sabia ainda que o dono ia reconhecer algo no rosto dela.
