Sônia trancou a porta da sala e ficou parada no meio do cômodo, olhando para Bruna e Patrícia. O vento da tarde entrou pela janela aberta e balançou a cortina fina. Elas tinham vindo juntas, sem aviso, e agora esperavam que ela falasse. Só depois, quando o envelope caiu, é que Sônia entendeu que não conseguiria mais guardar tudo para si.
A visita inesperada
Bruna sentou na cadeira de plástico da cozinha pequena. Patrícia ficou de pé, os braços cruzados. A casa de Sônia cheirava a roupa lavada e café requentado. Ninguém sabia direito por onde começar.
— A gente precisa entender o que aconteceu naquela madrugada — disse Bruna, a voz baixa. — Sete anos atrás.
Sônia apertou as mãos uma na outra. O olhar dela ia da porta para a janela, como se esperasse alguém aparecer. O vento soprou mais forte e a cortina roçou no chão.
O envelope que caiu do armário
Ela se levantou para pegar um copo d’água. Quando abriu o armário, o envelope antigo escorregou da prateleira de cima e caiu no chão. Notas de dinheiro velhas, amassadas, saíram pelo canto rasgado. Sônia parou, olhando para o dinheiro como se ele pudesse falar sozinho.
— Eu guardei porque nunca consegui gastar — murmurou ela. — Cada vez que tentava, lembrava do que tinha feito.
Patrícia se agachou e pegou uma nota. O silêncio na sala ficou pesado. Bruna sentiu o coração bater mais forte, mas ficou quieta, esperando.
A confissão que Sônia tentou segurar
Sônia sentou de novo. As mãos tremiam um pouco. Ela respirou fundo duas vezes antes de começar.
— Eu troquei os bebês, mas não fui eu quem escolheu qual criança seria descartada. Recebi o dinheiro pra trocar as pulseiras. A ordem veio de cima. Dona Vera mandou.
Ela disse que o neto dela não podia ser aquele menino fraco. Que era melhor trocar logo e ninguém nunca saber.
Bruna sentiu o ar faltar por um segundo. Patrícia apertou os olhos, como se tentasse entender se estava ouvindo direito. Sônia continuou, a voz quase sumindo.
— Eu guardei o envelope com o resto do dinheiro e uma nota que ela escreveu. Nunca usei. Mas também nunca devolvi. Tinha medo dela descobrir.
O vento balançou a cortina de novo. O envelope ainda estava aberto no chão, as notas espalhadas. Sônia olhou para as duas mulheres e, pela primeira vez, pareceu aliviada de ter falado. Bruna se levantou devagar, pensando em Diego e na foto que ele ainda guardava em algum lugar. Patrícia ficou ali, quieta, já imaginando o que faria com aquela verdade agora que tinha nome e sobrenome.
