Lívia saiu da reunião sobre a dívida sentindo que precisava voltar logo para Vila Aurora. A chuva começou forte de repente e Rafael ofereceu a marquise do prédio como abrigo. O que ela ainda não sabia era que o encontro guardava uma resposta que ela não conseguiria guardar só para si.
A reunião sobre a dívida
Eles falaram de números, prazos e da casa que estava em risco. Lívia mantinha as respostas curtas, olhos no relógio. Rafael, porém, desviava o assunto para o passado, para os anos em que os dois se viam escondido. Ela repetia que precisava ir embora.
O guarda-chuva quebrado
A calçada ficou alagada em minutos. Um guarda-chuva virado do avesso ficou ali, preso na grelha. Lívia apertou o casaco contra o corpo e disse que ia esperar o ônibus. Rafael deu um passo mais perto e falou baixo sobre o que nunca tinha dito: a diferença de classe que separou os dois ainda no começo, a pressão das famílias, o jeito como ele nunca parou de pensar nela.
Lívia sentiu a voz falhar quando começou a falar dos anos de ressentimento, do casamento que parecia mais uma conta a pagar do que uma vida. Rafael a puxou num abraço sem pedir permissão. O beijo veio logo depois, rápido e confuso. Ela afastou o rosto no mesmo instante, mas o gosto dele já estava ali.
O impossível só parece impossível enquanto ninguém tem coragem de atravessar a linha.
A volta para Vila Aurora
Lívia desceu do ônibus ainda com o coração acelerado. A culpa batia mais forte a cada passo em direção à casa. Beto viu os dois de longe, saindo da entrega que tinha feito no centro, mas ela não percebeu o olhar dele. Quando chegou, Marcelo ainda não estava em casa. Ela guardou o celular no bolso e ficou parada na cozinha, repetindo mentalmente que aquilo tinha sido só um erro de um momento. A chave vermelha continuava na gaveta, esquecida, enquanto a chuva parava lá fora.
