Marcos fechou a porta do restaurante às dez da noite, mas o cheiro de comida ainda pairava no ar. A velha marmita de alumínio, limpa e vazia, ficava na prateleira alta atrás do balcão. Ele não sabia que, antes do fim daquela semana, tudo o que tinha guardado por tanto tempo ia aparecer de uma vez.
A noite em que o salão lotou
Os clientes entravam sem parar. Alguns pediam o prato do dia, outros só queriam sentar e conversar. Carla servia as mesas enquanto Marcos ficava na cozinha, sem tempo para pensar em mais nada. Quando finalmente sentou, as pernas doíam. Ele olhou para a marmita e lembrou do pai, mas não falou nada.
Provas que Helena trouxe
Helena apareceu no dia seguinte, logo depois do almoço. Trouxe uma pasta fina e entregou sem rodeios. Isso é tudo que César tentou esconder, disse ela. Marcos leu os papéis em silêncio. Augusto estava sentado ao lado, quieto. Carla parou de limpar a mesa e ficou olhando.
O que Augusto decidiu contar
Augusto pegou a palavra depois de um tempo. Explicou que tinha conhecido o pai de Marcos anos atrás e que tinha feito uma escolha errada na sociedade deles. Não foi traição dele, foi covardia minha, falou ele. Ninguém respondeu de imediato. A marmita continuava na prateleira, refletindo a luz do teto.
Eu arrisquei tudo para chegar aqui. Agora quero só pagar o que devo.
Carla e a dívida que não escondia mais
Carla pediu para falar a sós, mas acabou contando na frente de todos. O empréstimo clandestino que tinha feito para pagar as contas do hospital estava maior do que imaginava. Eu não queria que você carregasse isso também, disse ela. Marcos segurou a mão dela por um instante, sem prometer nada que não pudesse cumprir.
Augusto ofereceu sociedade na rede. Marcos recusou na hora. Eu não quero o que era do meu pai; eu quero construir o que é meu. Pagaria as dívidas devagar, com o que o restaurante rendia. Não era orgulho vazio, era só o jeito que ele conseguia seguir em frente.
Meses depois, a porta que ficou aberta
Um vendedor entrou de roupa simples, carregando amostras. O funcionário novo já ia mandar ele embora quando Marcos interrompeu. Ofereceu uma cadeira e pediu para o rapaz sentar. Aqui ninguém é julgado pela roupa que veste, falou. O salão estava quase vazio, mas a marmita continuava no mesmo lugar, agora com um pouco de poeira. A vida não tinha virado conto de fadas, só tinha ficado um pouco mais leve.
