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Novelas

A Fome Escondida — Capítulo 2: Atrás da porta de ferro

Lívia seguiu o marido até o depósito e encontrou prateleiras cheias de comida e dívidas. O que mais a assustou foi um papel que falava da própria casa onde viviam.

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A Fome Escondida — Capítulo 2: Atrás da porta de ferro

Lívia caminhava alguns passos atrás do marido na rua estreita de depósitos, a chuva fina encharcando o casaco dela. Marcelo apertava a chave vermelha no bolso como se fosse salvar a vida. O que ela ainda não sabia era que o pior daquela tarde ia sair dos papéis guardados ali dentro.

A porta do depósito

Ela tinha seguido o carro dele desde cedo, depois de ver a chave cair no chão da sala na briga da noite anterior. Marcelo parou diante de uma fileira de portões enferrujados. A chuva batia no metal. Ele olhou para os lados antes de enfiar a chave vermelha na fechadura.

Segredo do depósito revelado

A porta de ferro subiu rangendo. Prateleiras lotadas de pacotes de biscoito, sacos de arroz, refrigerantes e caixas de chocolate ocupavam quase todo o espaço. Em cima de uma mesa velha, pilhas de extratos, cartões cortados e envelopes abertos. Lívia ficou parada na entrada. Marcelo virou devagar, o rosto molhado de chuva e de outra coisa.

— Eu comecei escondendo comida — ele disse baixo. — Depois comecei escondendo tudo.

Eu comecei escondendo comida. Depois comecei escondendo tudo.

Ela entrou devagar, tocando nas embalagens. O cheiro de comida velha misturado com papel molhado. Em uma pasta aberta sobre a mesa, um documento chamava atenção: cobrança judicial com o endereço da casa deles no cabeçalho. A casa estava como garantia de uma dívida que ela nunca tinha visto.

O envelope que ela levou

Lívia pegou o envelope maior, dobrou e guardou no bolso do casaco. Marcelo não tentou impedir. Os dois saíram em silêncio, a porta descendo de novo. Na rua, ela caminhou na direção contrária do carro dele. Precisava de alguém que entendesse números, alguém que não fosse da família. Pensou no médico que tinha atendido a mãe dela anos atrás, o único que talvez pudesse explicar sem julgar na hora. A chuva continuava fina, mas ela já não sentia frio.

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