Lívia parou do lado de fora da clínica, o envelope amassado na mão. A chuva escorria pelo vidro atrás de Rafael. Ela ainda não sabia que o que ouviria ali mudaria o jeito como via a própria casa.
O envelope na sala de espera
Lívia entrou sem marcar hora. O lugar cheirava a café caro e desinfetante. Rafael levantou os olhos do computador e sorriu de leve, como se esperasse por aquilo.
— Trouxe os papéis que falou — disse ela, estendendo o envelope.
Ele pegou sem pressa, abriu e folheou os extratos. A chuva batia mais forte no vidro. Lívia ficou em pé, as mãos no encosto da cadeira.
O que o banco escondeu
Rafael apontou para uma linha nos documentos. A casa tinha sido usada como garantia em um empréstimo que Marcelo fez dois anos antes. Lívia nunca viu aquele contrato.
— Isso não é só comida — ele disse baixo. — Tem juros compostos. Se não pagar em noventa dias, o banco pode leiloar.
Ela sentiu o estômago apertar. O envelope parecia mais pesado agora. Rafael fechou a pasta e olhou para ela.
Você continua pedindo desculpa por uma vida que nunca foi a que você quis.
Lívia recuou um passo. A frase doeu porque era verdade e porque ele não tinha direito de falar aquilo. Ela pegou o envelope de volta.
A decisão que Rafael tomou
— Eu vou até Vila Aurora — disse ele, levantando. — Quero falar com Marcelo direto. Alguém precisa explicar o tamanho da conta.
Lívia negou com a cabeça, mas não insistiu. Rafael já pegava o casaco. Do lado de fora, a chuva tinha parado. Lívia saiu primeiro, o envelope debaixo do braço. Rafael ficou olhando a porta se fechar, sabendo que a conversa na cozinha dos Nogueira ia ser pior do que qualquer exame médico.
