Rafael ainda carregava a vergonha da bandeja no chão. O dia tinha sido longo e o mármore do lobby parecia mais frio àquela hora. Só depois ele entenderia por que um gesto simples pesou tanto.
O copo de água
Beatriz viu o office-boy novo encostado na parede, ainda com o uniforme amarrotado. Ela pegou um copo, encheu de água e caminhou até ele sem pressa. Ele parecia perdido, não de rua, mas de lugar.
— Toma. Você não parou nem pra beber hoje.
Rafael aceitou o copo. A água estava gelada e o plástico úmido na mão dele. Ninguém tinha feito isso o dia todo. Nem quando ele era quem era de verdade.
Por que eu ligo pra pessoa
— Obrigado — disse ele baixo.
Beatriz deu de ombros. — Eu ligo pra pessoa, não pro cargo. Aqui todo mundo precisa de um minuto às vezes.
Ele sorriu de canto. Era a primeira vez que alguém falava com ele sem olhar para o crachá ou para o que podia ganhar.
Otávio apareceu do corredor e parou. Olhou os dois, depois o copo na mão de Rafael.
— Beatriz, volta pro balcão. Isso aqui não é creche.
Ela mordeu o lábio, mas voltou sem discutir. Rafael guardou o copo vazio na mão por mais um segundo.
O relógio no pulso
Enquanto Otávio reclamava de pilhas de papel que ninguém tinha pedido, Cristina passou pelo lobby. Seu olhar parou no pulso de Rafael. O relógio antigo brilhava baixo, couro gasto, mas o modelo era caro demais para um office-boy.
Ela apertou os olhos. Rafael ajustou a manga sem perceber. Beatriz estava longe, atendendo o telefone. Otávio já tinha ido embora.
Cristina não disse nada. Só anotou mentalmente o detalhe e seguiu para o elevador. Rafael sentiu o olhar nas costas. Aquela noite ele guardaria o relógio na gaveta.
