Dolores segurava o molho de chaves com força enquanto subia as escadas do salão de festas. O lustre jogava luz fria sobre as cadeiras arrumadas em círculo. Regina já estava de pé, prancheta na mão, olhando para os moradores. O que ela ainda não sabia era que o pior daquela noite viria só no final.
A assembleia no salão de festas
Os moradores chegaram aos poucos. Uns cochichavam, outros olhavam o relógio. Dolores ficou perto da porta, como sempre fazia. Vinte anos limpando o Eldorado e ainda sentia que não pertencia ali. Regina bateu a prancheta na mesa e pediu silêncio.
— O colar desapareceu ontem à noite — disse a síndica. — Alguém entrou no meu apartamento e levou. A zeladora foi a única que teve acesso depois das sete.
Dolores piscou. O colar era caro, ela sabia. Mas nunca tinha tocado em nada que não fosse dela. Tentou falar, mas a voz saiu baixa.
— Regina, eu entrei só pra verificar a janela que você pediu. Nada mais.
A defesa que não adiantou
Regina ergueu a mão. — Vocês são empregados, não moradores. Não podem circular assim. — A frase saiu seca, como se explicasse tudo. Dolores olhou para Juliana, sentada no fundo. A garota baixou os olhos para o celular. Ela tinha visto a filha da síndica perto da gaveta no dia anterior, mas guardou para si.
— Eu tenho chave de todo mundo — continuou Dolores. — Mas registro tudo no caderno. Se quiserem olhar…
Ninguém pediu para ver o caderno. Ademar, o porteiro, mexia os pés no canto. Os vizinhos murmuravam. Um deles disse que era melhor resolver logo, antes que virasse caso de polícia.
O clique que mudou tudo
Gilberto levantou o celular devagar. Tirou uma foto de Dolores parada ao lado da porta de serviço. A tela brilhou uma vez. Depois ele digitou rápido, mandando a imagem para o grupo do prédio. Dolores sentiu o olhar dele nas costas quando saiu.
— Isso vai acabar mal — murmurou para si mesma enquanto descia. O molho de chaves ainda tilintava na mão, mas já não parecia mais o mesmo.
