Rafael terminou o último recado do dia e guardou a pilha de papéis na pasta. O prédio já estava quieto, só restavam luzes apagadas e o barulho distante do elevador de serviço. Ele passou pela sala de reunião e viu a porta entreaberta, uma pasta preta jogada sobre a mesa. O que ele ainda não sabia era que aquela noite guardava respostas que ele buscava havia semanas.
A pasta preta sobre a mesa
Rafael parou no corredor e ouviu vozes baixas vindo de dentro. Otávio falava rápido, quase sem respirar entre uma frase e outra. Cristina respondia com tom seco, repetindo nomes de fornecedores e valores que pareciam grandes demais. Rafael ficou parado, o coração batendo mais forte, mas sem fazer barulho.
Ele reconheceu o nome de uma empresa que já tinha visto em relatórios antigos. Otávio mencionou um superfaturamento de quase duzentos mil reais e disse que precisavam limpar os rastros antes da chegada do novo presidente. Cristina concordou, mas parecia nervosa. Ela repetiu duas vezes que não podia perder o cargo agora.
Quando acham que você é ninguém
Rafael tirou o celular do bolso com cuidado. Apertou o botão de gravar sem olhar para a tela. As vozes continuavam. Otávio reclamou que Beatriz estava sempre por perto e que ela podia complicar as coisas. Cristina riu baixo e disse que a recepcionista era fácil de controlar. Rafael guardou cada número, cada empresa, cada data que eles soltavam sem perceber.
A conversa terminou de repente. Passos se aproximaram da porta. Rafael recuou dois passos e fingiu ajustar a pasta que carregava. Otávio saiu primeiro, nem olhou para o lado. Cristina veio atrás, já falando no celular. Eles deixaram a luz acesa e a porta aberta. Rafael esperou até o elevador fechar para entrar na sala.
A pasta preta ainda estava lá, aberta no meio.
A confirmação de Antunes
Rafael foi direto ao andar de cima. Sr. Antunes estava no escritório pequeno que usava como depósito de documentos antigos. Ele ouviu tudo sem interromper. Quando Rafael terminou de falar os nomes, o homem mais velho assentiu devagar. Um dos fornecedores que eles citaram já tinha sido investigado pelo avô.
Antunes abriu uma gaveta e mostrou um relatório velho com carimbo de confidencial. Disse que o avô parou a investigação no meio porque faltavam provas concretas. Agora as provas estavam voltando sozinhas. Rafael guardou o celular no bolso e respirou fundo. A empresa que ele herdaria estava mais podre do que imaginava.
Ele saiu do prédio mais tarde que o normal. A rua estava quase vazia. No caminho para casa, pensou em Beatriz e em como ela ainda não sabia de nada. Amanhã seria outro dia, mas ele já carregava um peso a mais.
