Marta entrou no ateliê dos fundos da Maison Bianca sem fazer barulho. O cheiro de seda e cola ainda estava no ar. A traição no ateliê começou ali, com Leonor de costas, o avental manchado de fio preto. Ela ainda não sabia que a pior parte da conversa nem tinha vindo.
A cortina que balançava
A cortina azul se mexia com o vento que entrava pela janela entreaberta. Marta parou a poucos passos. Leonor virou devagar, as mãos no bolso do avental.
— Você abriu minha gaveta — disse Marta. A voz saiu baixa, mas firme.
Leonor olhou para o chão. O pedaço de capa do caderno apareceu por um segundo entre os dedos dela.
O que Leonor tentava esconder
Marta deu um passo à frente. Leonor apertou o avental contra o corpo. O tecido do caderno rangeu.
— Eu só queria guardar meu emprego — murmurou Leonor. — Bianca perguntou onde você guardava as coisas. Eu falei a localização. Só isso.
Marta sentiu o peito apertar. Leonor tinha sentado ao lado dela por anos. Costuravam juntas, dividiam café frio e ouviam as reclamações uma da outra.
Você não roubou só meus desenhos, Leonor; roubou a confiança de quem sentava ao seu lado.
Leonor piscou rápido. As mãos tremeram.
A revelação que mudou o rumo
— Eu entreguei só o endereço — repetiu Leonor, a voz quase sumindo. — Mas quando cheguei na sua casa, a gaveta já estava aberta. Tinha outra pessoa lá antes de mim. Não sei quem era.
Marta ficou parada. O vento forte vinha de fora agora, anunciando chuva. Ela pensou nos retalhos que ainda tinha em casa e na feira de tecidos que reabriria cedo. Precisava de material novo. Leonor baixou a cabeça e saiu pelo corredor sem olhar para trás.
