Rafael apertou o botão do elevador e sentiu o peso do relógio no pulso. Ele tinha decidido guardar a peça, mas o dia corria e a pressa o fez esquecer. O que ele ainda não sabia era que aquele objeto ia gerar a primeira rachadura séria no disfarce.
O elevador espelhado
O aço polido refletia tudo. Rafael viu o próprio pulso ali, o relógio antigo que o avô usava nas reuniões importantes. Ele baixou o braço devagar, mas Cristina já estava ao lado, olhando de canto.
— Bom dia — murmurou ela, sem tirar os olhos do reflexo.
Rafael respondeu com um aceno curto. O elevador subia devagar, como sempre. O relógio marcava as horas em silêncio, mas parecia gritar no meio do metal brilhante.
A pergunta que não devia vir
Cristina virou o rosto de leve. O perfume dela encheu o espaço pequeno.
— Onde um office-boy arruma um relógio desses? — perguntou, voz calma, mas os olhos não eram.
Rafael engoliu seco. Pensou rápido numa história qualquer sobre herança de tio, mas a voz saiu mais seca do que queria. Ele disse que era de um parente falecido, coisa simples, nada de mais. Cristina não respondeu. Só ficou olhando o pulso dele mais um segundo, como quem fotografa mentalmente cada detalhe.
Beatriz entrou no segundo andar, com a pasta dos recibos. Notou o clima pesado logo de cara. Olhou de Rafael para Cristina e ficou quieta no canto, apertando a alça da bolsa.
O recado de Antunes
Quando as portas abriram no andar dela, Cristina saiu sem se despedir. Beatriz esperou o elevador subir mais dois andares antes de falar baixo.
— Ela não costuma fazer pergunta à toa — disse, quase só pra si.
Rafael não respondeu. Desceu no próximo andar e foi direto pro corredor dos fundos, onde Sr. Antunes esperava com uma pasta debaixo do braço. O homem mais velho olhou o pulso dele e balançou a cabeça uma vez.
— Você precisava ter guardado isso ontem — falou, voz baixa. — Agora ela já viu. E vai falar com Otávio antes do almoço.
Rafael sentiu o estômago apertar. O relógio parecia mais pesado do que de manhã. Ele tirou do pulso ali mesmo, guardou no bolso da calça e seguiu pro trabalho. Mas a sensação de que o dia ainda ia ficar pior não saía da cabeça.
