O que Rafael ainda não sabia era que aquele almoço ia deixar marcas difíceis de apagar depois. Duas bandejas de comida simples descansavam sobre a mesa de fórmica no restaurante popular perto da empresa. Beatriz tinha insistido em pagar a parte dele, mesmo ele tendo dito que não precisava.
A mesa de fórmica
Beatriz apontou para o prato dela e sorriu. “É feijão preto com arroz e bife acebolado. Melhor que qualquer coisa que servem no prédio.” Rafael comeu em silêncio no início, acostumado a restaurantes onde o garçom chamava pelo nome. Aqui ninguém o conhecia. A sensação era estranha e leve ao mesmo tempo.
Ela falou sobre o irmão mais novo que estudava à noite e sobre as contas que apertavam todo mês. “Eu só quero uma chance de fazer diferente”, disse ela, mexendo o copo de suco. Rafael ouviu sem interromper. Pela primeira vez em muito tempo, alguém falava com ele sem medir as palavras ou calcular o que podia ganhar.
Almoço com o novo colega
A conversa fluiu para o escritório. Beatriz reclamou do jeito como Otávio tratava as pessoas mais abaixo na hierarquia. “Ele nem olha na cara quando pede algo.” Rafael concordou com a cabeça. Ele já tinha visto aquilo de perto, mas agora via também o efeito que causava. Beatriz o tratava como igual, sem pressa de saber quem ele era além do office-boy que entregava papéis.
“Faz tempo que ninguém me trata assim sem querer alguma coisa.” A frase saiu dele baixo, quase sem pensar. Beatriz ergueu os olhos do prato e ficou quieta por um segundo. Depois sorriu, como se entendesse sem precisar explicar. O silêncio que veio depois não foi incômodo.
Rafael sentiu algo apertar no peito. Ele estava se aproximando dela de um jeito que não tinha planejado. A fortuna que escondia parecia cada vez mais pesada ali, entre as bandejas baratas e o barulho do restaurante lotado.
O que Cristina viu da rua
Eles saíram juntos, ainda conversando sobre nada importante. Do outro lado da rua, Cristina parou o carro no sinal e olhou para o lado. Viu os dois rindo de algo que Rafael tinha dito. Viu Beatriz tocar o braço dele por um instante antes de se afastar. Ela não deveria estar ali, pensou Cristina. Uma recepcionista não cruza esse tipo de limite. A decisão veio rápido: era hora de mostrar onde cada um pertencia.
Rafael sentiu o olhar dela antes de virar a cabeça. Quando olhou, o carro já tinha acelerado. A culpa misturada com o desejo de ficar mais um pouco com Beatriz ficou ali, parada na calçada, enquanto o sol da tarde batia forte nas calçadas de São Paulo.
