Alva entrou no castelo ainda com o cheiro de terra nas mãos, aceitando o serviço de um dia só para consertar as mudas do jardim principal. O que ela ainda não sabia era que o homem que parou ao lado dela não era um simples visitante, e que o encontro guardava uma virada que mudaria o rumo dela ali dentro.
O jardim das flores brancas
O jardim estava coberto de pétalas brancas que pareciam neve caída em plena tarde. Alva ajoelhou ao lado de uma muda partida ao meio, tentando amarrar o caule com um pedaço de pano velho. O vento trouxe um cheiro de folhas úmidas e, de repente, uma sombra longa cobriu o chão à sua frente.
— Precisa de ajuda? — perguntou a voz.
Ela levantou o olhar rápido, sem sorrir. — Só se souber amarrar sem apertar demais. Senão a seiva para de subir.
A conversa que não deveria ter acontecido
O homem se agachou do outro lado da muda. Usava uma capa vermelha simples, sem os bordados da corte. Alva pensou que fosse algum ajudante de fora. Ele perguntou o nome dela e ela respondeu sem rodeios, falando do Campo dos Simples e de como as flores pareciam responder quando ela as tocava. Ele ouvia de verdade, sem interromper.
— Você fala como quem não tem medo de errar — disse ele depois de um tempo.
Alva deu de ombros. — Medo eu tenho, mas não adianta ficar calada por causa disso. A muda morre do mesmo jeito.
Uma pétala branca voou e grudou na capa vermelha dele. Ele não tirou. Ela reparou no detalhe sem querer.
A frase que ficou no ar
Quando ele se levantou, a luz do sol bateu no rosto dele de lado. Alva viu que era mais jovem do que parecia à primeira vista. Ele estendeu a mão para ajudar ela a se levantar e, por um segundo, os dedos deles se tocaram.
Você olha para mim como homem, não como príncipe, e talvez seja exatamente por isso que eu não consigo ir embora.
Alva piscou, confusa. Só então entendeu quem estava na sua frente. O príncipe Cravo. O noivo de Rubra.
Ela deu um passo para trás. — Eu preciso terminar o serviço.
Ele não se mexeu. — Eu também.
Os olhos que observavam de longe
Do alto da varanda que dava para o jardim, Rubra via os dois lado a lado. Os sorrisos eram pequenos, quase tímidos. Nada de abraços, nada de palavras grandes. Só o jeito como Alva falava sem baixar a cabeça e como Cravo ficava ali, esquecendo as obrigações do dia. Rubra apertou a borda da balaustrada até doer. Aquela camponesa não era mais só uma incômodo. Era alguém que podia tirar o que ela queria. E Rubra decidiu, ali mesmo, que isso não aconteceria.
