Sérgio parou diante do primeiro prédio que sua construtora concluiu. O sol baixo batia no concreto novo e a velha colher de pedreiro dentro da caixa de vidro parecia o único objeto que ainda ligava ele ao que tinha sido. Tati tinha pedido para encontrar com ele ali. O que ele ainda não sabia era que a conversa que faltava ia definir de vez como ele queria seguir.
A caixa de vidro na obra
Ele chegou primeiro. Ficou olhando a placa com o nome da empresa, as janelas já com vidros, o canteiro limpo. A caixa de vidro estava sobre uma mesa improvisada, simples, sem enfeite. Dentro, a colher que usou nos primeiros meses de obra, quando ainda carregava massa sozinho. Dirceu tinha insistido em guardar. “Pra lembrar de onde saiu”, dissera o mestre.
Tati apareceu de carro. Desceu arrumada, salto, cabelo preso. Sorriu de leve quando viu o prédio. “Ficou bonito”, disse, parada a uns passos dele.
O pedido que ela fez
Ela falou baixo, como quem já ensaiou. Que as meninas sentiam falta da rotina de antes. Que a casa nova era boa, mas que era possível voltar a morar juntos. Que ela tinha errado com as dívidas, mas que agora via que ele tinha conseguido. Sérgio escutou sem interromper. Quando ela parou, ele respirou fundo.
“Eu não fiquei rico quando ganhei a construtora”, respondeu. “Fiquei rico quando parei de aceitar uma vida onde eu valia tão pouco.”
Tati ficou quieta. Não chorou, só apertou a bolsa contra o corpo. Sérgio disse que as meninas não iam ficar sem pai, que ele ia continuar pagando e vendo elas todo final de semana. Que não ia humilhá-la na frente de ninguém. Mas que voltar não ia acontecer.
A distância que Roberta manteve
Roberta apareceu mais tarde, com capacete, prancheta na mão. Viu Tati indo embora e não se aproximou de imediato. Quando ficou só os dois, ela comentou que o prédio estava pronto para a vistoria final. Sérgio olhou para ela.
“Eu só agora me sinto livre pra descobrir se tem alguma coisa entre a gente”, falou. “Se você ainda quiser tentar.”
Roberta não sorriu logo. Disse que precisava pensar. Que tinha visto ele passar por tudo e que não queria ser peso agora. Mas que não ia sumir.
A casa que recebeu ele
Quando chegou em casa, as luzes da sala estavam acesas. Lara e Bia corriam pela sala, descalças. O capacete de mestre que ele deixava na entrada já estava no chão, usado como escudo. Bia gritou “pai” e pulou no colo dele. Lara ficou parada um segundo, só olhando, depois veio abraçar também.
Sérgio largou a bolsa, tirou o sapato e sentou no sofá. O cheiro de comida na mesa ainda estava quente. Ele fechou os olhos por um instante. Pela primeira vez em meses, o silêncio não parecia vazio.
