Antonia apertava a mão do filho enquanto a maca descia o corredor do hospital público. Dudu tinha batido o carro na chuva forte da madrugada e agora precisava de sangue urgente. O que ela ainda não sabia era que um simples exame mudaria tudo que ela acreditava sobre os últimos trinta anos.
A maca no corredor
A enfermeira empurrava rápido. As luzes fluorescentes piscavam. Antonia corria do lado, sapatos molhados deixando marcas no piso. O médico já gritava ordens para a transfusão. Dudu estava pálido, o braço pendurado para fora da maca. Ela não soltou a mão dele até a porta da emergência fechar.
O exame que não batia
Duas horas depois o médico saiu da sala. Trazia uma prancheta na mão e uma cara que Antonia nunca tinha visto. Ele pediu que ela sentasse. Falou baixo, como quem não quer assustar.
— O tipo sanguíneo dele não combina com o seu. A senhora tem certeza que é a mãe biológica dele?
Antonia sentiu o chão sumir. Repetiu o que o médico tinha dito como se as palavras pudessem mudar. O sangue da senhora não corre nas veias desse rapaz. O médico repetiu devagar, olhando para a ficha. Ela balançou a cabeça, negando sem voz. O prato de sopa que tinha deixado na mesa de casa ainda devia estar quente. Agora parecia coisa de outra vida.
De volta para casa
Quando liberaram Dudu para a UTI, Antonia pegou o ônibus sozinha. Chegou no barraco do morro já amanhecendo. As mãos tremiam tanto que demorou para achar a chave. Entrou, acendeu a lâmpada fraca da sala e foi direto para o quarto. Abriu o armário velho, tirou a caixa de costura que guardava desde o parto. As agulhas ainda estavam lá, a linha preta embolada. Ela revirou tudo devagar, procurando a pulseirinha de plástico que tinha guardado trinta anos atrás. O nome quase sumido. O coração batia forte. Ela sempre desconfiou que algo tinha dado errado naquela noite de tempestade. Agora precisava saber o que Neide via naquela madrugada na Casa de Saúde Vilar.
