Celina ergueu a taça primeiro, como sempre. O lustre refletia nas bordas de cristal e a sala parecia um quadro pronto. Rafael notou o envelope marrom na mesa lateral antes de sentar. Ninguém ali sabia ainda que a herança Vilar ia virar o brinde de cabeça para baixo.
O jantar de aniversário
A mesa estava posta com precisão. Pratos brancos, talheres alinhados, guardanapos dobrados em formato de leque. Isadora mexia no colar sem parar. O advogado da família, doutor Mendes, chegou atrasado e pediu licença antes de abrir a pasta.
— Vamos brindar primeiro — disse Celina, voz controlada. — Depois conversamos.
Rafael olhou para a irmã. Os dois tinham combinado não falar nada antes da sobremesa. Antonia não estava ali, mas o peso da foto rasgada ainda estava na cabeça dele.
A herança Vilar em jogo
Doutor Mendes pigarreou. Explicou que o testamento antigo previa que só descendentes de sangue podiam manter a parte principal da clínica e os imóveis. Qualquer dúvida sobre parentesco precisava ser resolvida antes da partilha.
Isadora baixou o garfo.
— O que quer dizer com dúvida?
Celina apertou o guardanapo. O brinde tinha congelado no ar minutos antes, e agora ninguém conseguia levantar a taça de novo.
O sangue vai decidir quem senta nessa mesa e quem volta pro morro.
A frase saiu da boca de Celina baixa, quase um sussurro. Rafael sentiu o estômago apertar. Isadora empurrou a cadeira para trás.
O teste que não pode esperar
O advogado confirmou que o laboratório já estava avisado. Um simples exame de DNA resolveria tudo em poucos dias. Celina tentou mudar de assunto, falando do bolo que o cozinheiro tinha preparado, mas Isadora não deixou.
— Eu quero fazer o meu agora — disse ela. — E quero que Dudu faça também.
Rafael concordou em silêncio. A aliança que ele tinha fechado com Antonia no arquivo continuava firme, mesmo sem ela estar presente. Celina olhou para os filhos como se calculasse quanto ainda conseguia controlar.
A noite terminou cedo. Os carros saíram um a um da garagem. Antes de apagar a luz da sala, Celina guardou o envelope marrom na gaveta da escrivaninha. Dois dias depois o laboratório ligaria marcando a coleta. Rafael já imaginava o silêncio que viria quando o resultado chegasse.
