Antonia desceu as escadas do subsolo da Casa de Saúde Vilar com Rafael logo atrás. O cheiro de papel velho misturava com umidade. Eles procuravam algo que explicasse o que o exame de sangue de Dudu já tinha mostrado. O que ainda não sabiam era que a prova estava ali, esperando por eles.
O arquivo esquecido
Prateleiras altas lotavam o cômodo escuro. Caixas de papelão amassadas empilhavam no chão. Rafael acendeu a lanterna do celular e apontou para uma estante marcada com o ano de trinta anos atrás. Antonia puxou uma pasta marrom. A poeira subiu e ela tossiu baixo.
— Neide disse que Celina veio pra cá ontem à noite — murmurou Antonia.
Rafael não respondeu. Ele já tinha visto a mãe descendo aquelas mesmas escadas outras vezes, sempre com pressa.
A foto rasgada ao meio
Em uma das caixas, Antonia encontrou um envelope fino. Dentro tinha metade de uma fotografia antiga do berçário. Os dois bebês apareciam em berços lado a lado. A imagem estava cortada no meio, como se alguém tivesse rasgado de propósito. Antonia ficou parada olhando.
— Isso é de quando nasceram — disse ela, a voz baixa. Ela reconheceu o lençol que enrolava o filho naquela época.
Rafael pegou a outra parte da foto que estava mais embaixo. Juntas, as duas metades mostravam os nomes rabiscados no verso. Um deles estava borrado.
A ficha adulterada
Ao lado da foto tinha uma ficha de parto. O nome de Antonia aparecia no lugar errado. O nome de Celina estava riscado e substituído. Rafael pegou o papel e olhou de perto. A letra era fina, inclinada para a direita. Ele já tinha visto aquela escrita mil vezes em bilhetes deixados na cozinha da mansão.
Essa não é a letra de uma inocente, é a assinatura de uma culpada.
Ele guardou a ficha no bolso. Antonia observou o rosto dele mudar. O chão parecia abrir debaixo dos dois ali embaixo.
O que Rafael decidiu
Eles subiram as escadas sem falar muito. Na porta do subsolo, Rafael parou. Ele sabia que a mãe estava em casa, preparando o jantar de aniversário. O telefone dele vibrou com uma mensagem dela perguntando onde ele estava.
— Vou chamar todo mundo hoje à noite — disse ele. — Sem aviso. É melhor assim.
Antonia assentiu. O coração batia forte, mas pela primeira vez não estava sozinha nessa busca. Rafael olhou para o relógio. Faltavam três horas pro jantar começar.
