Bento parou na porta da cozinha apertada e observou Melina com o copo na mão. A água dentro dele tremia mesmo sem ela mexer o braço. Ele queria uma resposta clara antes de qualquer coisa. O que Melina ainda não sabia era que a conversa daquele dia ia deixar marcas que nenhum dos dois esperava.
A pergunta diante da pia
Bento entrou e colocou o brinquedo de Tico em cima da mesa. Tico dormia no quarto dos fundos. A casa na Mooca estava em silêncio, só o barulho da geladeira.
— Tem alguma coisa que você nunca me contou sobre o Tico? — perguntou ele direto, sem rodeio.
Melina apertou o copo. A água balançou mais.
— Por que você está falando isso agora? — ela respondeu, a voz baixa.
Ele explicou que precisava ouvir uma negação firme. Só depois conseguiria fazer o exame em paz. Melina sentiu o peito apertar. O passado com Caio apareceu na cabeça dela como uma foto que não queria ver de novo.
O copo que tremeu
Melina colocou o copo na pia. A água transbordou um pouco na borda.
— Você está me acusando de traição na nossa própria casa? — disse ela, já com a voz mais alta.
Bento negou com a cabeça, mas não recuou. Falou do comentário da Carmem no parque, da pergunta que Tico fez sobre ficar amarelo. Melina percebeu que a dúvida dele não ia sumir com uma discussão.
— Se você precisa de um exame para ser pai, talvez nunca tenha sido pai de verdade — soltou ela, as palavras saíram antes de pensar.
O silêncio que veio depois pesou mais que qualquer grito.
O brinquedo guardado no bolso
Bento não respondeu. Pegou o brinquedo de volta, mas também pegou uma escova de dente pequena que Tico usava de manhã. Colocou tudo no bolso sem que Melina visse. Saiu para o quintal e ficou ali um tempo, olhando a parede.
No dia seguinte, ele foi até o consultório do Dr. Laranjo. Entregou o material e pediu que fizessem o exame rápido. O médico olhou os objetos, anotou o nome e prometeu que em poucos dias teria algo. Bento saiu sem dar explicação sobre o porquê.
Ele já sentia que a resposta ia mudar a rotina da casa. Na volta, passou pela feira da Mooca e comprou laranja como sempre. Mas guardou o recibo do laboratório no fundo da carteira, onde Melina não ia procurar.
