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Fruto da Dúvida — Capítulo 1: O menino que não parecia seu

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Bento levava Tico ao parquinho da Mooca quando uma conhecida fez uma comparação que ninguém esqueceu. Em casa a dúvida só cresceu até ele procurar a clínica genética.

Bento empurrava o balanço devagar no parquinho da Mooca enquanto Tico apertava o caminhão vermelho contra o peito. O sol batia na pele do menino e deixava o cabelo mais escuro ainda. Bento sorria quando o filho ria, mas já sentia o olhar de alguém nas costas. O que ele ainda não sabia era que aquela tarde ia plantar uma dúvida que ele não conseguiria tirar da cabeça.

A comparação no parquinho

Carmem parou perto do banco com a sacola de feira na mão. Ela olhou Tico, depois olhou Bento e soltou uma risada baixa.

“Nossa, Bento, o menino saiu mais pra uva do que pro abacaxi, né?”

Bento apertou a mão no encosto do balanço. Tico continuou brincando sem entender nada. Carmem continuou, voz mais alta agora para as outras mães ouvirem.

“Antes de criar o filho de outro homem, eu faria um DNA.”

As palavras ficaram no ar. Bento sentiu o rosto quente. Ele não respondeu. Só chamou Tico e disse que era hora de ir embora.

A volta para casa

No caminho, Tico caminhava ao lado segurando a mão do pai. O caminhão vermelho batia na perna dele a cada passo. Bento tentava pensar em outra coisa, mas a frase de Carmem voltava.

Em casa, Melina estava na cozinha lavando louça. Bento colocou Tico no chão e foi tomar um copo de água. O menino ficou olhando o pai por um tempo.

“Pai, um dia eu fico amarelo que nem você?”

Bento engoliu o gole de água. A pergunta soou simples, mas doeu. Ele respondeu que cor não importava e mandou o filho brincar no quarto.

A decisão naquela noite

Melina foi dormir cedo. Bento ficou na sala com a luz apagada. Ele pensava na cara de Carmem, na pergunta de Tico e na forma como as pessoas olhavam para eles na rua. A dúvida não ia embora.

Ele pegou o celular e procurou o nome da clínica que tinha visto num outdoor perto do ponto de ônibus. Marcou o horário para o dia seguinte. Ele só queria ter certeza.

Antes de apagar a luz, guardou o carro de brinquedo de Tico dentro da mochila. O menino não ia sentir falta por um dia. Bento deitou e ficou olhando o teto. A casa estava quieta, mas dentro da cabeça dele tudo estava barulhento.