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A Chave Dourada — Capítulo 1: A Venda

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Tata Santos fecha a venda mais cara da carreira: uma cobertura de oito milhões para o Senador Álvaro Queiroz, que pede sigilo absoluto. Ao entregar as chaves, encontra uma mulher elegante. Ao sair,…

A Chave Dourada — Capítulo 1: A Venda — cena da novela


A luz da manhã entrava oblíqua pelas janelas da sala de vendas, aquela claridade que só São Paulo oferecia em setembro — nem quente demais, nem fria, apenas precisamente incômoda. Tata Santos observava a assinatura do Senador Álvaro Queiroz na última página do contrato, a caneta descendo com a elegância de quem assinou a vida inteira em documentos que importavam. Oito milhões de reais. Uma cobertura duplex na Vila Olímpia, piso de madeira clara, vista para a Marginal Pinheiros. Dinheiro vivo, sem financiamento.

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O senador levantou, abotoou o paletó cinza chumbo com a mesma precisão da assinatura. ‘Tata, querida, preciso de absoluto sigilo neste negócio. Ninguém sabe. Nem minha equipe. Entendido?’ Ela fez que sim com a cabeça, aquele gesto mínimo que ela dominava há doze anos. Ele sorriu — aquele sorriso que aparecia nas campanhas, nos jantares, nos noticiários das sete. ‘Você é uma profissional de verdade. Isso é raro.’

O silêncio que pesa

No salão do Bom Retiro, Suzy penteavava uma cliente enquanto Tata tomava um café que já estava frio há quinze minutos. O salão cheirava a permanente e a conversa morna de mulheres que se veem todo mês. Suzy era a melhor amiga desde a adolescência, quando vendiam água de coco na porta da escola e sonhavam em sair da Pompeia.

‘Político rico que pede sigilo já vi esse filme, Tata.’ Suzy apontou a tesoura como se fosse uma arma. ‘Geralmente tem segunda mulher, ou terceira, ou coisa que não presta.’

Tata respirou fundo. ‘É só uma venda. Eu não pergunto a vida das pessoas.’

‘Mas você sente, né. Eu conheço esse seu jeito de calar a boca quando algo tá errado.’

Café com o filho

Pedro estava debruçado no celular quando ela chegou em casa, aquele apartamento de dois quartos na Zona Oeste que ela comprou com a comissão da primeira cobertura que vendeu. O rapaz levantou os olhos — tinha os olhos dela, maçãs do rosto do pai que ela raramente mencionava.

‘Oi, mãe. Fez bom dia?’

‘Fiz.’ Ela sentou ao lado dele na cozinha. ‘Vendi aquela cobertura da Vila Olímpia.’

‘Quanto?’

‘Oito milhões.’

Pedro assobiou baixo. ‘Você é fera.’ Ele voltou ao celular, mas sorriu. Aquele sorriso que ela guardava como quem guarda moeda rara. Ela tomou café com leite enquanto o observava — em poucos anos ele seria homem, sairia dali, teria sua vida. Por enquanto, aquele era o silêncio que ela amava.

A cobertura vazia

O táxi subiu a Avenida Faria Lima enquanto a cidade fervia lá embaixo — carros, motos, pessoas que tinham pressa. Tata tinha as chaves duplicadas numa pasta de couro. Protocolo. Sempre havia chaves duplicadas para o arquivo.

O prédio era o tipo de lugar onde ninguém olhava pra ninguém. Vidro, aço, piso de mármore que ecoava. Ela entrou pela primeira vez sozinha, subiu no elevador que tinha música clássica e espelho em três lados. No trigésimo segundo andar, a porta se abriu para um corredor de apenas uma porta. A dela.

Tocou a campainha. Nada. Tocou novamente. A porta se abriu.

Uma mulher estava ali. Uns cinquenta e poucos anos, cabelo castanho claro penteado com naturalidade, blusa de seda creme. Sentada no sofá, xícara de chá na mão, como se tivesse estado esperando por Tata a vida inteira. ‘Ah, você deve ser a corretora. Entre, por favor.’

Algo não fechava.

A mulher se apresentou como Beatriz. Disse que estava ali alguns dias escrevendo um livro sobre design de interiores. Conversou sobre a luz da cobertura, sobre como a Marginal vista dali tinha uma beleza bruta que ninguém reconhecia. Tata entregou as chaves, fez a documentação padrão, perguntou se estava tudo em ordem. Beatriz sorriu — aquele sorriso que tem tristeza embutida na estrutura. ‘Tudo perfeito, querida. Obrigada.’

Descendo no elevador, Tata começou a conectar os pontos. O senador comprou sozinho. Pediu sigilo. E aqui estava uma mulher, elegante, culta, como se a cobertura fosse dela desde sempre. Ela saiu do prédio ainda pensando.

O reconhecimento

Na recepção do prédio, havia uma TV. Um noticiário. Tata parou para amarrar o sapato — gesto que não precisava fazer, mas fez. Na tela, o Senador Álvaro Queiroz num coquetel de gala, ao lado de uma mulher elegante, cabelo castanho claro, blusa de seda clara. A mulher do sofá. A mulher que estava tomando chá.

Tata sentiu o peso daquilo descendo lentamente pela sua espinha.

‘Senador Queiroz reafirma compromisso com a família brasileira’, dizia a voz da jornalista. A mulher ao lado dele sorria para as câmeras, aquele sorriso que tinha tristeza embutida.

Em doze anos vendendo, eu nunca tinha visto isso.

Tata saiu do prédio com a pasta vazia na mão e a cabeça cheia de perguntas que ela ainda não tinha permissão de fazer a si mesma. Mas algo tinha mudado. Algo tinha começado ali, naquele sofá, com aquela xícara de chá.

E ela ainda não sabia que já era tarde demais para voltar atrás.