A cidade fervia sob o calor de novembro. Tata desceu do táxi na Vila Olímpia com um dossiê falso na mão — documentação de assinatura, algo que justificasse voltar àquele endereço. Seu coração batia em ritmo diferente. Ela sabia, desde ontem, que algo errado pulsava naquele apartamento. E ela precisava entender.
O elevador subiu em silêncio. Quando a porta se abriu no 42º andar, Beatriz estava à sua espera — não sentada desta vez, mas em pé junto à janela, olhando para a cidade como quem observa um inimigo.
A mulher da janela
Tata entrou devagar. Beatriz se virou, e desta vez não fingiu. Seus olhos carregavam noites inteiras de insônia.
— Você voltou — disse Beatriz, não como pergunta, mas como constatação.
— Documentação de assinatura — respondeu Tata, mostrando a pasta. — Protocolo.
Beatriz sorriu. Era um sorriso que não alcançava os olhos.
— Pode guardar isso. Você não voltou por documentação.
Tata respirou fundo. Vinte e sete anos vendendo imóvel ensinam a ler silêncios. Ensinam a reconhecer quando uma mulher está pronta para desabar.
— Sou a esposa dele — disse Beatriz, caminhando em direção à cozinha. — Quer café?
Tata não respondeu. Apenas sentou.
O diário guardado
Beatriz trouxe duas xícaras de porcelana fina. Suas mãos tremiam levemente ao pousar a bandeja na mesa. Quando se sentou, o corpo dela pareceu desabar em câmera lenta.
— Vinte e seis anos — começou Beatriz. — Desde o dia em que casei. Ele não me deixa sair sozinha. Não me deixa trabalhar. Não me deixa falar no telefone sem que ele ouça.
Tata ouviu. Apenas ouviu. Era isso que Beatriz precisava — não de conselhos, mas de testemunha.
— Eu era designer — continuou Beatriz, levantando-se. — Bom mesmo. Tive até exposição em Milão.
Ela caminhou até um dos quartos. Voltou com um caderno amarelado, as páginas quebradiças. Era um diário de design — croquis em tinta nanquim, anotações à mão, projetos que respiravam criatividade.
— Ele me proibiu de existir — disse Beatriz, passando as páginas lentamente. — Cada linha que você vê aqui, ele dizia que era perda de tempo. Que eu tinha um papel na vida dele. E esse papel não era ser artista.
Ele me proibiu de existir.
Tata sentiu o peso da frase atravessar o peito. Beatriz continuou:
— Esta cobertura… Comprei em nome dela, com dinheiro que ele nem sabe que existe. Minha mãe deixou para mim. Ele acha que gastei tudo com sapato.
Tata entendeu. Não era uma venda de imóvel. Era um plano de fuga.
O telefonema no gabinete
Enquanto Tata e Beatriz conversavam, a seis quilômetros de distância, no gabinete do Senador na Av. Paulista, Álvaro Queiroz recebia uma ligação. Seu assessor, com a voz presa:
— Senador, confirmamos. Sua esposa foi vista ontem saindo da Vila Olímpia com uma mulher. Corretora de imóveis, aparentemente.
Álvaro apoiou a cabeça na mão. Seu rosto não se mexeu. Apenas seus olhos ficaram mais escuros.
— Nome dela?
— Ainda estou descobrindo, senhor. Mas conseguimos uma foto.
O assessor entregou a imagem. Álvaro olhou para Tata — seu rosto, seu sorriso calmo, aquela maneira de estar no mundo que não pedia permissão.
Ele sorriu. Frio. Calculado.
— Querido, traga-me tudo o que você conseguir sobre esta mulher. Nome, endereço, família, contas bancárias, histórico profissional. Tudo.
O assessor saiu. Álvaro continuou olhando para a foto. Seus dedos tamborilavam na mesa — tap, tap, tap — o som de alguém que acabava de identificar uma ameaça.
O retorno para casa
Tata saiu da cobertura quando o sol começava a descer. Beatriz a acompanhou até a porta.
— Ninguém pode saber que você esteve aqui — disse Beatriz, e sua voz era quase um sussurro.
— Ninguém vai saber — respondeu Tata.
Mas quando desceu à rua, sentiu o peso daquele segredo. Não era um segredo leve. Era o tipo de segredo que pesa nos ombros, que muda a cor das coisas, que faz você olhar duas vezes para trás antes de atravessar a rua.
Entrou no táxi. O motorista perguntou o destino. Tata deu o endereço do Bom Retiro.
Precisava falar com Suzy. Precisava de alguém que tivesse pés no chão.
O salão no Bom Retiro
O salão de Suzy fervia de movimento — mulheres debaixo de secador, música ao fundo, aquele cheiro característico de tinta de cabelo e esperança. Suzy estava com as mãos ocupadas, mas quando viu Tata, deixou tudo.
— Senta aqui — disse, puxando uma cadeira de canto.
Tata se sentou. Suzy já sabia que algo tinha errado — conhecia aquela expressão na face da amiga há quinze anos.
— Aquela cobertura que vendi — começou Tata, baixo. — A dona é a esposa de um senador.
Suzy parou. Suas tesouras ficaram suspensas no ar.
— Qual senador?
— Não posso dizer.
— Tata, se você está metida em algo que — começou Suzy.
— Não estou metida. Mas agora…
Tata não terminou a frase. Não precisava. Suzy conhecia aquele tipo de silêncio. Era o silêncio de quem tinha acabado de carregar um fardo que não pediu para carregar.
À noite, em casa
Pedro estava na cozinha quando Tata entrou. O filho levantou os olhos do celular — e ela viu algo que não vira em anos. Medo nos olhos dele.
— Mãe, tem algo estranho acontecendo — disse Pedro, colocando o telefone na mesa.
Tata sentou ao lado dele. Seu coração acelerou.
— Fala.
— Dois caras pararam na saída da escola hoje. Perguntaram se eu era filho da Tata Santos. Perguntaram meu nome, meu telefone, se você trabalhava perto daqui.
A temperatura da cozinha caiu.
Tata abraçou o filho. Seu rosto permaneceu calmo, mas sua mente acelerou. Ele não havia perdido tempo. Ele já estava se movendo.
E pela primeira vez em doze anos de carreira impecável, Tata Santos tinha medo de ter criado uma inimizade que não sabia como conter.
