Dona Zezé chegou antes da cafeteria abrir, a chave de bronze presa numa fita velha balançando na mão. Bel mal tinha ligado as luzes quando a viu parada na porta. O que ela ainda não sabia era que aquela chave guardava algo que sua mãe havia deixado esperando o momento certo.
A visita antes da abertura
Bel destrancou a porta devagar. Dona Zezé entrou sem esperar convite, como sempre fazia. Colocou a chave em cima do balcão e respirou fundo antes de falar.
— Trabalhei com sua mãe quando a cafeteria ainda era só um balcão pequeno. Ela me pediu pra guardar isso caso alguém um dia questionasse o lugar.
Bel olhou a chave sem tocar. Tião apareceu pela porta dos fundos carregando caixas de pão e parou ao ver a cena.
A busca no depósito
O depósito ficava no fundo, cheio de caixas antigas e cheiro de mofo. Dona Zezé foi na frente, explicando que a caixa era de madeira escura e ficava atrás de uma prateleira que ninguém mexia mais. Bel sentia o coração apertado. Por que a mãe nunca tinha falado disso?
Tião empurrou uma prateleira velha. O pó levantou. Atrás dela estava a caixa, fechada com um cadeado pequeno que combinava com a chave.
— Abre logo, Bel — pediu Tião baixo.
Bel girou a chave. O cadeado cedeu com um clique seco.
O que a mãe deixou
Dentro da caixa havia papéis amarelados, um caderno gasto e, no fundo, um envelope grande. Dona Zezé segurou o envelope um segundo antes de entregar. Sua mãe não deixou riqueza para você, Bel; deixou uma verdade esperando a hora certa.
— Nunca quis usar isso enquanto ela estava viva. Agora é sua vez.
Bel abriu o envelope. O contrato apareceu: a compra da participação do pai de Fifi, com datas, assinaturas e recibos de pagamento. Tudo legal. Tudo registrado.
Bel passou os dedos no papel. O silêncio no depósito parecia mais alto que qualquer grito. Ela pensou em Caio, na pasta que ele tinha trazido, na expulsão da manhã anterior. Agora tinha algo concreto para mostrar.
Tião encostou no ombro dela sem falar. Dona Zezé guardou a chave de volta no bolso, como se sua parte tivesse acabado. Bel fechou a caixa devagar e olhou para o balcão lá na frente, onde tudo começaria de novo.
