O salão do festival exalava o cheiro denso de peixe fresco e limão. Fileiras de cúpulas prateadas refletiam as luzes frias do teto, todas idênticas, sem um único nome à frente. O silêncio era cortado apenas pelo tilintar distante de talheres.
Sakura apertou o crachá anônimo contra o peito. O código 47 brilhava discreto no papel laminado. Ela sabia que bastava uma falha para Ricardo descobrir quem estava por trás daquele prato.
O espelho sem assinatura
Lucas circulava entre as mesas com o olhar preso nas câmeras. Cada vez que Ricardo se aproximava dos jurados, ele interceptava com um sorriso tenso. Sakura permaneceu imóvel ao fundo, observando.
Os pratos foram abertos um a um. Quando o de número 47 chegou à mesa, os jurados hesitaram. O corte era preciso, quase cirúrgico. Um deles murmurou sobre a técnica que reconhecia de outro chef.
Ricardo ergueu a cabeça ao ouvir a descrição. Seus olhos percorreram o salão em busca de qualquer rosto conhecido.
A pontuação que não deveria existir
O placar eletrônico piscou. Número 47: 9,8. Os jurados elogiaram a inovação do corte, exatamente a lâmina que Ricardo sempre afirmou ter inventado. Sakura sentiu o coração bater contra as costelas.
O caderno de Hiroshi estava certo. A técnica que ele criara décadas antes agora recebia aplausos sob outro nome.
Ricardo exigiu ver a lista de concorrentes. Lucas interveio com voz baixa, mas firme. O chef não recuou.
Sem nome no prato, o preconceito de vocês perdeu o paladar.
O anúncio que selou os finalistas
Os organizadores subiram ao palco. Apenas dois códigos seguiriam para a final ao vivo. O 47 foi chamado primeiro. O segundo, o de Ricardo.
Ele sorriu para as câmeras, mas seus dedos tamborilavam na mesa. Sakura virou-se para sair antes que o olhar dele a encontrasse.
Uma câmera captou o reflexo das cúpulas ainda alinhadas, agora com apenas dois nomes invisíveis pairando sobre elas.
