Larissa desceu pelo corredor de serviço quase às escuras. A porta dos fundos estava entreaberta, a chave ainda balançando na fechadura. Ela parou, sentindo o frio que vinha do pátio. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
A porta entreaberta
Ela empurrou devagar. O cômodo de estoque estava como sempre, caixas empilhadas, cheiro de detergente. Nada parecia fora do lugar. Mas a chave na fechadura não era da casa. Larissa a tirou e guardou no bolso.
Banâncio apareceu no final do corredor, carregando uma bandeja vazia. Ele parou ao ver a expressão dela.
— O que foi?
— Alguém esqueceu isso aqui aberto. De propósito.
A traição interna
Eles chamaram o funcionário mais novo, o que limpava os fundos toda noite. Ele entrou no escritório já suando, as mãos sujas de graxa. Larissa fechou a porta. Banâncio ficou em pé ao lado.
— Você recebeu dinheiro — disse ela, direto. — Para passar plantas do restaurante, horários da equipe, tudo.
O rapaz olhou para o chão. Depois para Madalena, que acabara de entrar sem bater.
— Eu só obedeci. Era ordem de quem está aqui há mais tempo.
O golpe não entrou pela porta da frente; alguém daqui abriu para ele.
Larissa sentiu o ar faltar por um segundo. Banâncio cruzou os braços. Madalena não se mexeu.
O nome que saiu
O funcionário respirou fundo antes de continuar.
— Foi ela que me apresentou primeiro. Disse que era só pra ganhar um extra, que o homem pagava bem e não fazia mal pra ninguém.
Madalena deu um passo atrás. Larissa não piscou. A pilha de papéis da noite anterior ainda estava na mesa, os recibos de outros restaurantes marcados com caneta vermelha. Banâncio olhou de uma para a outra, a boca seca.
— Eu gravei o áudio — avisou o rapaz, baixo. — Se quiserem.
Larissa pegou o celular dele. A voz de Abacácio estava clara no arquivo, marcando os dias e os valores. Madalena encostou nas costas da cadeira, como se precisasse de apoio.
— Eu ia contar — começou ela. Mas parou. Ninguém respondeu.
Larissa guardou o celular. O silêncio no escritório ficou pesado, só o barulho da chuva lá fora. Ela pensou na dívida que carregava, no quanto Abacácio já sabia. Banâncio ficou perto da porta, olhando para o corredor escuro. O próximo passo ia depender de quem mais estava envolvido, e ninguém ali sabia ainda o quanto isso ia custar.
