Rafael parou o carro na garagem escura antes do amanhecer. Augusto já esperava, encostado na parede dos fundos, com as mãos nos bolsos do casaco. Nenhum dos dois acendeu a luz. O que eles ainda não sabiam era que a conversa não ficaria só entre eles.
A garagem longe de Júlia
Rafael desligou o motor e desceu devagar. Augusto não se mexeu. O silêncio entre os dois parecia maior que o espaço vazio ao redor. Rafael respirou fundo antes de falar.
— Eu quero entregar Diego. E parte da operação também. Em troca, quero proteção pra Júlia e pro bebê.
Augusto riu baixo, sem alegria. Olhou para o genro como se medisse até onde ele podia confiar.
O que cada um realmente quer
— Você acha que é tão simples assim — disse Augusto. — Eu não estou aqui pra fazer acordo de cavalheiros. Quero você como informante. E quero que continue respondendo pelos crimes que já cometeu.
Rafael apertou os punhos. Sabia que o sogro não ia facilitar. Mas precisava tentar. Júlia estava grávida de sete meses e ele não queria que o filho nascesse no meio de tiroteio.
— Eu não estou salvando você — continuou Augusto, voz baixa e firme. — Estou tentando salvar minha filha de você.
Eu não estou salvando você. Estou tentando salvar minha filha de você.
Rafael ficou calado por alguns segundos. A frase doeu mais do que ele esperava. Ainda assim, assentiu. Era o preço que ia pagar.
O que Diego viu de longe
Do outro lado da rua, entre carros parados, Diego ajustou a câmera do celular. A garagem estava escura, mas os dois homens eram inconfundíveis. Ele tirou várias fotos sem flash. Nenhuma das duas figuras percebeu o clique silencioso.
Quando Diego guardou o telefone, sorriu sozinho. Aquele registro valia mais que qualquer dinheiro que Rafael pudesse oferecer agora. Ele já tinha o que precisava pra dar o próximo passo.
