Rafael parou do lado de fora da sala de conselho e respirou fundo. O crachá de office-boy pesava no bolso da camisa como se soubesse o que viria a seguir. Ele ainda não imaginava que a parte mais difícil não seria falar com a diretoria, mas encarar o olhar de Beatriz minutos depois.
O crachá sobre a mesa
Todos estavam sentados quando ele entrou. Cristina já apontava para a porta, mandando o office-boy sair. Otávio ria baixo, achando que o moleque atrapalhava a reunião importante. Sr. Antunes só observava em silêncio. Rafael caminhou até a cabeceira, tirou o crachá devagar e o deixou cair sobre a madeira ao lado do relógio do avô.
Eu sou o dono, e eu vi tudo, disse ele sem levantar a voz. O silêncio caiu de uma vez. Cristina congelou com a mão no ar. Otávio largou a caneta.
O que eles disseram antes
Rafael pediu que repetissem tudo que tinham falado nos últimos dias, achando que ele era só mais um funcionário. Cristina tentou rir, chamando aquilo de mal-entendido. Otávio começou a explicar o esquema de contratos, mas parou no meio da frase quando percebeu que não havia saída. As provas estavam na pasta que Antunes abriu na hora: planilhas, e-mails, transferências para empresas ligadas a eles dois.
Beatriz ficou de pé no canto, ainda com a acusação de roubo pairando sobre ela. Rafael afastou Otávio e Cristina no mesmo instante, sem discussão. A equipe respirou aliviada, mas ninguém bateu palma. A vitória saiu silenciosa, como quem espera o próximo passo.
O olhar que faltou
Rafael procurou Beatriz no meio da sala. Ela não sorria. O rosto dela estava fechado, os olhos baixos. Ele entendeu ali que a revelação não tinha trazido só justiça. Tinha trazido distância. Beatriz saiu primeiro, sem esperar o fim da conversa.
No corredor, o crachá ainda estava sobre a mesa, ao lado do relógio antigo. Rafael pensou em ir atrás dela, mas ficou mais um minuto olhando o objeto que até ontem o protegia. A empresa parecia diferente agora. E ele também.
