Dalva parou na frente do elevador aberto e ergueu o cabo rompido bem perto do rosto de Bruno. O fio balançava solto entre os dedos dela, com as pontas esfiapadas e pretas de poeira. Bruno não tirava os olhos do cabo. Só no fim daquela manhã é que o teste de Nina mostraria que o problema não parava ali.
Diante do elevador
Bruno deu um passo à frente, a voz baixa e cortada. “Você me puxou pra dentro do buraco. Eu quase caí por causa de você.” Dalva apertou o cabo com mais força, o rosto vermelho de cansaço. “Eu te puxei porque aquele cabo ia te partir no meio.” Ela repetiu a frase duas vezes, como se precisasse ouvir de novo.
Nina ficou entre os dois, olhando o mecanismo exposto. O elevador ainda rangia de leve, como se reclamasse do peso da conversa. Bruno respirou fundo e cruzou os braços, esperando que Dalva explicasse mais.
A versão da zeladora
Dalva baixou o cabo devagar e apontou para o topo da cabine. “Eu estava no andar de cima quando ouvi o barulho. O cabo começou a ceder e eu só tive tempo de te agarrar antes que ele soltasse tudo.” Bruno balançou a cabeça, descrente. “E por que não chamou a polícia logo depois?”
Ela não respondeu de imediato. Virou o rosto para o lado e ficou em silêncio por alguns segundos. Nina pegou o cabo da mão dela e examinou as marcas de corte. Eram limpas, feitas com ferramenta, não de desgaste natural.
O teste que mudou tudo
Nina desceu até o andar zero com o pedaço de cabo e ligou o multímetro que sempre carregava na bolsa. Os números confirmaram o que Dalva disse: o fio realmente estava prestes a arrebentar. Mas também mostrou que alguém tinha religado a iluminação do clube depois que Bruno foi puxado para fora.
Otávio era o único que tinha a chave do quadro geral. Dalva viu o olhar de Nina mudar e entendeu que a história dela agora era só parte de algo maior. Bruno encostou na parede, cansado, mas ainda desconfiado.
A caixa que ela guardava
Dalva caminhou até o canto do compartimento e tirou uma caixa metálica vermelha de baixo de uma tábua solta. A tinta estava rachada, mas o cadeado continuava fechado. Ela colocou a caixa no chão e olhou para os dois antes de falar. “Eu menti no depoimento de 1998. Disse que a saída estava livre porque o Otávio me pediu.”
O silêncio que veio depois pareceu mais pesado que o ar úmido do subsolo. Nina se agachou perto da caixa sem tocá-la. Bruno só observava, tentando entender o que aquilo mudava para ele. Dalva fechou os olhos um segundo e respirou fundo, como se soltasse algo que carregava há anos. A caixa ficou ali, esperando.
