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Andar Zero — Capítulo 4: Cinzas de uma velha mentira

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Nina levou a caixa chamuscada até a oficina do pai. O teste do mecanismo antigo confirmou o que Anselmo sempre soube, mas as marcas no cadeado apontavam para algo que ninguém queria dizer em voz alta.

Andar Zero — Capítulo 4: Cinzas de uma velha mentira — cena da novela

Nina pousou a caixa vermelha chamuscada sobre a bancada de Anselmo sem dizer nada no primeiro instante. O pai observava a madeira gasta ao redor, como se o objeto pudesse voltar no tempo sozinho. Ele já sabia o que vinha a seguir, mas ainda assim temeu ouvir as palavras em voz alta.

A oficina de tijolos aparentes

Nina encostou os dedos na tampa enferrujada. A cor vermelha aparecia por baixo da fuligem, viva demais para algo que tinha passado por fogo. Ele precisa ver isso, pensou. Anselmo limpou as mãos no avental e esperou.

— Pai, eu trouxe o que Dalva guardou todos esses anos. Ela mentiu no depoimento. Agora eu preciso que você me mostre que o elevador não falhou.

Anselmo olhou para o lado, para a parede de tijolos sem reboco. A oficina cheirava a óleo e poeira seca. Ele nunca tinha voltado a tocar em mecanismo de elevador desde o dia em que a família Ferraz o acusou.

O teste com o carrinho

Anselmo pegou um carrinho de ferramentas cheio e o empurrou até a porta dos fundos. Nina ficou quieta. Ele prendeu a trava antiga no lugar e carregou mais peso em cima. O mecanismo segurou sem ranger. A voz dele saiu baixa.

— Funcionava. Sempre funcionou. Eu testei isso mil vezes antes de 1998.

Nina se aproximou do cadeado. Seu elevador não matou ninguém, pai; alguém fechou a saída por fora. A frase saiu sem que ela planejasse. Anselmo parou de mexer no carrinho.

A cicatriz e as marcas externas

Dalva apareceu na porta lateral da oficina. Trazia a manga da blusa arregaçada até o ombro. A cicatriz fina e branca descia do cotovelo até o pulso. Ela parou perto da bancada e falou só o necessário.

— Eu menti porque achei que ia proteger todo mundo. Incluindo você.

Anselmo pegou o cadeado que Nina tinha trazido dentro da caixa. Passou o polegar nas bordas. Havia arranhões novos, de fora para dentro. Alguém trancou depois que o fogo começou. Ele ergueu o olhar para a janela alta da oficina. Atrás do vidro embaçado, Otávio Ferraz observava em silêncio, sem se aproximar.

Nina guardou o cadeado de volta. Dalva recolheu a manga. Ninguém mencionou o que fazer com a informação. Anselmo desligou a luz de trabalho e ficou olhando o espaço escuro entre as ferramentas. A caixa vermelha continuava aberta sobre a bancada, como se ainda tivesse mais coisas para mostrar.