Sérgio acordou antes das cinco, como todo dia. Na cozinha, a lâmpada sobre a pia iluminava a marmita aberta ao lado das mãos calejadas. Ele separava arroz e feijão enquanto as meninas ainda dormiam. Tati continuava na cama, sem se mexer.
A rotina que não acaba
Ele dobrou as roupas escolares de Lara e Bia, colocou os cadernos na mochila e verificou se havia lanche. Tudo em silêncio. Do quarto vinha o som baixo da televisão que Tati deixara ligada a noite inteira. Sérgio já sabia que, se acordasse a esposa agora, ela diria que estava cansada.
Ele colocou a marmita na bolsa térmica e guardou o resto na geladeira. As meninas precisavam de café da manhã antes de sair para a escola. Ele fritou ovos e fez pão com manteiga, servindo em pratos pequenos. Quando terminou, olhou o relógio. Ainda dava tempo de sair antes do ônibus lotar.
O bilhete esquecido na mesa
Antes de ir, Sérgio passou pela sala para pegar as chaves. Entre as contas do mês, uma delas estava aberta. O nome dele estava no topo, mas o valor era maior do que ele lembrava. A data de vencimento já tinha passado.
Ele leu o papel duas vezes. Era uma fatura de cartão que nunca usara. A compra era de roupas e um celular novo. Sérgio dobrou a conta e guardou no bolso da calça de trabalho.
Quando Tati apareceu na porta do quarto, de robe, ele já estava com a bolsa pronta. Ela pediu que ele trouxesse dinheiro para o mercado antes de voltar à noite. Ele respondeu que o salário ainda não tinha caído.
Não existe salário que sustente uma casa onde só um adulto virou responsável.
Tati bufou e voltou para a cama. Sérgio fechou a porta sem responder.
O peso que ficou
Na obra, ele misturou massa e levantou tijolos como sempre. Mas a conta no bolso apertava. Ele pensou nas meninas, no que precisavam para estudar, e no que sobrou para pagar. Ele já desconfiava que algo não fechava.
Seu Dirceu passou e perguntou se estava tudo bem. Sérgio disse que sim, que era só cansaço. No intervalo, ele olhou a conta de novo. O valor não batia com nada que ele comprara. Ele decidiu que, à noite, verificaria o que mais estava guardado na gaveta.
Quando o sol baixou, Sérgio guardou as ferramentas. A promessa de checar as outras contas ficou na cabeça o caminho todo de volta. Ele não falou com ninguém no ônibus. Só queria chegar em casa e ver o que mais encontraria.
