Marta ajustou a barra do vestido vermelho pela terceira vez antes de entrar no salão de mármore. As clientes já estavam sentadas, olhando o tecido que balançava sob o lustre. Ela queria só que a peça ficasse perfeita, mas Bianca caminhava em círculos com o olhar duro.
A prova que virou cena
As clientes murmuravam entre si quando a costureira subiu no pequeno degrau para mostrar o caimento. O tecido caía bem nos ombros, marcava a cintura sem apertar. Marta respirou aliviada por um segundo. Bianca parou na frente dela e puxou a barra com força.
O rasgo foi seco. Um som que ecoou no salão inteiro. As mulheres pararam de falar. O tecido vermelho se abriu até o joelho, as costuras se soltando uma a uma.
O que Bianca falou na frente de todo mundo
— Isso aqui não serve pra nada — disse Bianca, jogando o pedaço rasgado no chão. — Você não sabe mais o que está fazendo.
Marta ficou parada, as mãos ainda segurando o resto do vestido. As clientes olharam para o lado, algumas rindo baixo. Leonor, que costurava no canto, baixou a cabeça. Bianca apontou para a porta.
— Pega suas coisas. Não quero mais você aqui.
Você pode rasgar o tecido, mas não apaga a mão que criou cada ponto.
Marta repetiu isso baixo enquanto juntava a bolsa. Ninguém respondeu. Ela saiu pelo corredor dos fundos, o ar condicionado gelado batendo no rosto.
De volta para o Bixiga
O ônibus demorou. Quando chegou na casa-ateliê, o cheiro de comida pronta já tinha passado. Clara estava no quarto fazendo lição. Marta foi direto para o armário onde guardava o caderno de croquis. A gaveta estava entreaberta. Uma linha dourada estava caída no chão, como se alguém tivesse puxado rápido demais.
Ela olhou a gaveta vazia. O caderno não estava lá. Quem mexeu nisso? pensou, sentando no chão. O dia ainda não tinha acabado de verdade.
