Dona Maçã repousava na cama estreita do quarto dos fundos, o rosto ainda pálido depois da noite no hospital. Clara arrumava os comprimidos sobre a mesinha de cabeceira e tentava não fazer barulho. O que ela ainda não sabia era que uma gaveta velha escondia respostas muito anteriores às dívidas de Melâncio.
O remédio e a gaveta trancada
Clara abriu a gaveta superior da cômoda para guardar os frascos. A madeira rangia baixo. Atrás de um maço de contas antigas, ela sentiu algo firme que não abria. Uma pequena fechadura enferrujada prendia a parte de baixo.
Dona Maçã virou a cabeça no travesseiro.
— Deixa isso quieto, menina. Não é lugar de remédio.
Clara fechou a gaveta sem insistir, mas guardou o detalhe. A velha nunca falara de documentos guardados, só das contas que chegavam todo mês.
A chave dentro do pote de costura
Melâncio chegou do hospital com a cara fechada. Abacácio o seguiu até a sala, mas não entrou no quarto. Clara saiu um instante para pegar água e, quando voltou, viu Dona Maçã sentada na beira da cama, olhando para o chão.
— Você não precisa mexer em nada aqui dentro — repetiu a velha. — Tem coisa nessa casa que é melhor morrer comigo.
Tem coisa nessa casa que é melhor morrer comigo.
Clara não respondeu. Guardou o comentário e foi até a cozinha buscar o prato que tinha esquentado. Quando saiu, Abacácio estava parado na porta do quarto, olhando fixo para o pote de costura aberto sobre a mesa.
A discussão sobre emprego
Melâncio jogou a jaqueta no sofá e foi direto para o quarto.
— Eu não vou ficar procurando trabalho como se fosse mendigo. Já falei.
Clara parou na porta, segurando o copo de água.
— Sua mãe quase morreu de tanto estresse. O médico disse que não pode continuar assim.
— E você acha que mandar em mim vai resolver? — Melâncio ergueu a voz. — Chega aqui, organiza remédio e já quer mandar na casa toda.
Dona Maçã pediu silêncio com a mão, cansada. Ninguém discutiu mais. Clara recolheu os copos e saiu do quarto com Melâncio atrás dela. Abacácio ficou só um instante a mais.
Ele pegou a chave pequena e enferrujada que estava dentro do pote de linhas. Reconheceu o formato sem precisar virar. Guardou-a no bolso antes de fechar a porta.
