Daniel olhou o boleto pela terceira vez antes de abrir o caderno da mãe. A conta da casa estava vencida havia quase um mês e a conta do banco não chegava nem perto do valor. Ele sabia que Clara guardava aquele caderno como se fosse a única coisa que ainda restava da mãe. O que ele ainda não percebia era que entregar aquelas páginas ia custar mais do que qualquer dívida.
O boleto ao lado do caderno
O apartamento dos Mendes era pequeno, mas silencioso naquela tarde. Clara tinha saído cedo para a confeitaria. Daniel ficou sozinho com o papel amassado na mão e o caderno aberto na receita de bolo de laranja com calda de limão. Ele já tinha visto a mãe fazer aquele doce mil vezes. Sabia que valia dinheiro.
Ele pegou o celular, hesitou, depois guardou de novo. A casa deles estava em risco. Se não pagasse logo, perderiam tudo. Pensou na irmã trabalhando na Valença, tentando construir algo com as mesmas anotações que ele agora olhava. Mas a dívida era real. O banco não esperava.
A ligação de Beatriz
O telefone tocou uma hora depois. Beatriz Valença não perdeu tempo com rodeios. Ofereceu o valor exato da dívida mais um pouco. Em troca, queria fotos das receitas e qualquer papel que Clara ainda guardasse sobre a mãe. Daniel ficou quieto por uns segundos. Depois perguntou quanto exatamente ela pagaria.
Ele repetiu a frase baixinho depois de desligar: é só para pagar a casa. Não era roubar a vida da irmã, era resolver um problema que ninguém mais ia resolver. Ele abriu o caderno de novo e começou a virar as páginas devagar, procurando as que pareciam mais completas.
As fotos que ele enviou
Daniel usou o celular da mãe, o que Clara menos usava. Fotografou cada receita com cuidado, sem deixar sombra na página. Quando terminou, guardou o caderno exatamente onde estava, com a caneta ao lado. Ninguém ia notar que tinha sido mexido.
Eu não vendi minha irmã, vendi algumas páginas.
Ele mandou as fotos para o número que Beatriz passou. Meia hora depois, o dinheiro caiu na conta. Daniel pagou o boleto ainda no mesmo dia. Quando Clara chegou em casa, ele já tinha guardado o comprovante e preparado o jantar. Falou pouco. Ela também estava cansada e não perguntou.
Beatriz recebeu o material ainda à noite. Mandou imprimir as fotos e chamou a equipe de produção para a manhã seguinte. Queria uma nova linha de doces pronta antes do fim da semana. Nenhuma das receitas tinha o nome de Clara. Todas iam sair como criação da confeitaria.
