Amora ficou parada no meio da Feira Velha, o documento dobrado dentro da bolsa. A festa comunitária tinha começado mais cedo, com luzes penduradas entre as barracas e o cheiro de comida misturado ao de terra molhada. Ela ainda não tinha falado com ninguém sobre o que faria com a herança. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
A decisão que ninguém esperava
Os moradores do Bairro Nobre apareceram tímidos, alguns ainda de roupa cara, outros já de chinelo. Amora observou tudo em silêncio. Ela pensou nas cartas que a mãe deixou, nas terras que Uvaldo tomou. Ninguém seria expulso. A herança serviria para abrir caminhos entre os dois lados da vila, não para fechar portas.
Cerejane ficou no canto, perto de uma barraca de doces. O rosto estava inchado de tanto chorar. Ela não pediu desculpa. Só queria saber se ainda podia ficar na casa da família. Amora respondeu com uma frase curta: “Ninguém vai ser jogado fora”.
O pedido de Abacatão
Abacatão se aproximou devagar, as mãos sujas de terra da feira. Ele não pediu perdão de joelhos. Só disse que queria caminhar ao lado dela, sem pressa, sem cobrança. Amora olhou o colar com a semente dourada que sempre guardou. Ela já sabia que o amor deles tinha mudado.
Os dois não se abraçaram. Ficaram lado a lado vendo as crianças correrem entre as barracas novas que a herança estava ajudando a construir. A assembleia já tinha tirado os direitos de Uvaldo. Agora era hora de decidir o que fazer com o que restava.
A semente no vaso de barro
No final da tarde, Amora pegou o vaso de barro que Dona Melancia guardava atrás da barraca. Plantou a semente dourada com cuidado, cobrindo devagar. A primeira folha pequena já aparecia. Ela virou para a multidão e falou sem gritar:
Meu valor nunca esteve no preço que vocês colocaram em mim.
Abacatão estendeu a mão. Amora aceitou. Caminharam juntos pela feira que começava a se misturar com o Bairro Nobre. Ninguém saiu ganhando tudo. Ninguém perdeu tudo. A vila ficou um pouco mais justa, um pouco mais real. Cerejane pegou a mala e foi embora sem olhar para trás. A folha da semente balançou com o vento da noite.
