Júlia deixou o celular virado para baixo na mesa da cozinha e olhou para Diego. Queria falar sobre os dias em que pensou em ir embora, mas as palavras demoravam a sair. O que ela ainda não sabia era que Renato passaria pela rua mais cedo naquela noite e notaria o carro do amigo parado em frente.
A cozinha à noite
Diego chegou com o rosto cansado do trabalho. Júlia serviu o resto do almoço que tinha esquentado e sentou na cadeira ao lado dele. O celular ficou ali, a tela para baixo, como se escondesse algo que ninguém queria ver. Ela respirou fundo antes de começar.
— Eu já pensei em sair daqui — disse ela. — Mês passado, quando as contas começaram a apertar mais.
Diego mexeu o garfo no prato sem comer. Sabia que Renato controlava tudo, mas ouvir da boca dela era diferente. Júlia continuou, a voz baixa para não acordar a filha no quarto.
O pior não é ter medo dele. É ter esquecido quem eu era antes dele.
O silêncio que veio depois pareceu durar minutos inteiros. Diego sentiu o olhar dela fixo no seu rosto e não conseguiu desviar. Algo mudou no ar da cozinha, algo que nenhum dos dois queria nomear ainda.
O olhar que ficou
Júlia contou sobre Camila e os papéis escondidos. Falou da dívida que parecia maior do que Renato admitia. Diego ouviu tudo sem interromper, só assentindo de vez em quando. Quando ela parou, ele estendeu a mão por cima da mesa e parou a centímetros da dela.
— Você não precisa carregar isso sozinha — murmurou ele.
Ela sentiu o calor da palma dele mesmo sem tocar. O celular vibrou uma vez, mas nenhum dos dois olhou. O tempo passou devagar, e o que começou como conversa virou algo mais pesado, mais difícil de ignorar.
Renato na calçada
Renato parou o carro dois números antes da casa. Reconheceu o veículo de Diego e ficou olhando o relógio. Eram quase onze da noite. Ele ficou ali mais alguns minutos, vendo a luz da cozinha ainda acesa e o amigo saindo pela porta dos fundos.
Diego acenou rápido para Júlia antes de ir embora. Renato não se mexeu até o carro sumir na esquina. Quando entrou em casa, encontrou a esposa lavando a louça sozinha. O prato de comida ainda estava na mesa, esfriando.
Júlia secou as mãos e disse que ia dormir. Renato ficou na cozinha olhando o celular virado para baixo. A chuva começou a cair do lado de fora, batendo nas janelas. Ele pensou em ligar para Diego, mas guardou o telefone no bolso. Algo na forma como o amigo saiu tarde demais ficou preso na cabeça dele, e ele sabia que não conseguiria dormir enquanto isso não fosse esclarecido.
