O que Marcelo ainda não sabia era que a conversa sob a marquise do condomínio ia revelar mentiras que ele carregava havia meses sem perceber.
O reflexo na poça
Marcelo ficou parado na calçada, o uniforme encharcado colado no corpo. A chuva tinha parado, mas a água ainda escorria pelas folhas das palmeiras. Na poça à frente do portão, o carro preto refletia o prédio inteiro. Henrique desceu devagar, ajustando o paletó.
Vanessa apertou o braço dele por um segundo, como quem pede silêncio. Marcelo deu um passo à frente.
A pergunta que não esperava
— Quem é esse homem? — perguntou Henrique, a voz baixa, quase educada.
Marcelo olhou direto para Vanessa. — Desde quando? Desde quando você está com ele?
Ela olhou para os dois lados, como se buscasse uma saída. O porteiro fingia não escutar atrás do vidro.
— Marcelo, não é hora — disse ela. — Isso aqui não é lugar.
Uma pessoa? Eu sou o homem que ficou sem comer para não faltar nada para você.
Henrique ergueu uma sobrancelha. Vanessa baixou a cabeça.
O que sobrou na marquise
Vanessa deu meio passo para trás. — Marcelo é alguém do passado. Uma pessoa que eu conhecia. Só isso.
Marcelo sentiu o peito apertar. Não respondeu. Virou o corpo e foi embora pela calçada molhada. Henrique ficou olhando a silhueta dele sumir na esquina.
Mais tarde, já no carro, Henrique pegou o celular. Digitou o nome de Marcelo e o endereço da Zona Leste que Vanessa tinha mencionado uma vez por engano. Ele não disse nada para ela. Apenas guardou o número e pensou que ia descobrir sozinho o que mais ela havia escondido.
