O copo de suco continuava no chão do corredor, esquecido, enquanto os alunos se afastavam para ouvir Pimentudo. Giabê viu o líquido escorrer devagar até a grade do armário. Ele ainda não sabia que aquela história inventada ia chegar à sala inteira antes do sinal.
O copo de suco esquecido
Pela manhã o grupo se juntou rápido. Dois meninos cochichavam olhando para o armário de Giabê. Uma menina parou com o caderno no peito, esperando. Pimentudo chegou devagar, já sorrindo.
— Ouvi que ele tem alguma coisa grave — disse Pimentudo, alto o suficiente para todos escutarem. — Algo que não pode ficar perto de gente normal. Tipo contagioso.
Ninguém perguntou o que era. O boato bastava. O copo de suco ficou ali, no meio do caminho, enquanto a roda se fechava.
A primeira vez que Tatá confrontou
Tatá apareceu com o livro de matemática na mão. Ela ouviu as últimas palavras e parou.
— Isso não é verdade — falou, voz firme mas baixa. — Você nem sabe o que ele tem.
Pimentudo virou o rosto devagar. O sorriso ficou maior.
— E você sabe? — perguntou. — Conta pra gente então.
Giabê chegou nesse momento. Ele viu Tatá parada ali, o grupo olhando. Sentiu o peito apertar.
— Para, Tatá. Não precisa.
Ela olhou para ele. Giabê balançou a cabeça devagar. Ela não entendia ainda que a mentira já estava andando sozinha.
Mentira não precisa saber a verdade
Pimentudo deu de ombros e foi embora rindo com os outros. O corredor esvaziou. O copo de suco foi chutado por alguém e rolou até o canto. Giabê e Tatá ficaram sozinhos ali por um minuto.
— Eu só quis ajudar — murmurou ela.
— Eu sei. Mas quanto mais a gente discute, mais eles falam.
Giabê pegou a mochila. A frase dele ficou na cabeça dela o resto da manhã: mentira não precisa saber a verdade para destruir alguém.
O boato na sala
Quando entraram na sala, Giabê percebeu. Duas meninas pararam de falar quando ele passou. O professor ainda não tinha chegado. Um bilhete foi passado para frente. Alguém riu baixo. O pacote de insulina que Pimentudo vira na mochila virara prova de uma doença que ninguém sabia nomear.
Tatá sentou na frente dele, tensa. Giabê olhou pela janela. Depois da aula ele pensou em chamar ela para o pátio. Precisava contar de verdade, antes que a versão de Pimentudo virasse a única que existia.
