O bolo de aniversário estava ressecado sobre a mesa da cozinha. Os quatro filhos de Dalva evitavam olhar uns para os outros. Renato girava o relógio de pulso entre os dedos, o mesmo que comprara com o adiantamento que nunca deveria ter tocado. Dalva esperava. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele almoço só ia começar quando ele resolvesse falar.
O relógio quebrado na mesa
Renato bateu o relógio contra a borda da mesa até o vidro estalar. Os pedaços caíram espalhados entre os pratos. Ele respirou fundo e olhou para o chão.
— Eu peguei o dinheiro da construtora. Alterei os documentos da procuração. Coloquei a notificação no envelope do Leandro pra ninguém desconfiar de mim primeiro.
Dalva não piscou. Vera apertou o guardanapo até os nós dos dedos ficarem brancos. Márcia virou o rosto na direção de Caio, que continuava em silêncio no canto da sala.
A confissão que ninguém queria ouvir
Leandro empurrou o celular com a gravação para o meio da mesa. Renato continuou:
— Achei que você perdoaria no final, mãe. Como sempre fez.
Dalva respondeu baixo, mas todo mundo ouviu:
Meu amor por você continua inteiro, Renato, mas não será mais esconderijo para os seus crimes.
Vera limpou a garganta.
— Eu devolvo o que recebi. Não quero mais nada dessa história.
Márcia encarou Caio.
— Você sabia o tempo todo que era ele.
Caio assentiu devagar, sem defender ninguém.
O que Dalva decidiu
Leandro pegou o celular de volta e disse que ia levar a gravação para o advogado que Caio indicara. Renato não tentou impedir. Dalva ficou em pé, empurrou a cadeira para o lugar e falou para os quatro:
— A venda está suspensa. A casa continua minha. Mas eu não vou morar com nenhum de vocês.
Ela saiu pela porta dos fundos e parou um instante no quintal, olhando a lata de costura enferrujada que ainda guardava coisas antigas. Os filhos ficaram na cozinha, sem saber o que fazer com o silêncio que sobrou.
