Dalva chegou cedo naquela manhã. O cheiro de frango assado ainda pairava nos cômodos, mas os pratos na mesa continuavam vazios. Só uma travessa coberta ficava no centro, como se alguém tivesse interrompido tudo no meio. Ela esperou sentada na cabeceira, sabendo que os filhos chegariam sem saber o que realmente a esperava.
O cheiro de comida na casa vazia
Vera foi a primeira. Entrou devagar, olhando ao redor como quem procura algo que já não está mais ali. Colocou a bolsa na cadeira e ficou de pé, sem saber se sentava ou esperava convite. Dalva não disse nada. Só apontou para o lugar ao lado.
— Mãe, eu… — Vera começou, mas parou. As palavras pareciam grandes demais para aquela cozinha.
Chegada dos irmãos e do advogado
Márcia apareceu logo depois, trazendo Caio. Ele veio de terno, mas sem a pasta de sempre. Leandro chegou suando, ainda de ônibus, e ficou perto da porta. Renato demorou. Quando entrou, olhou direto para a travessa coberta, como se calculasse o que estava em jogo.
Dalva esperou todos se acomodarem. O silêncio durou mais do que qualquer um suportava. Ela pegou a colher e serviu um pouco de arroz para si mesma, sem oferecer a ninguém.
A frase que mudou tudo
— Eu não sumi para vocês sentirem minha falta — disse Dalva, voz baixa. — Eu sumi para descobrir quem só sentiria falta do que eu fazia.
As palavras ficaram no ar. Vera baixou a cabeça. Márcia apertou o braço de Caio. Leandro olhou para o irmão mais velho. Renato mexeu no celular, mas não digitou nada.
Ela acompanhou tudo. As acusações, as mentiras e os poucos momentos em que alguém tentou proteger de verdade.
Caio pigarreou. Olhou para Dalva, que assentiu.
— A venda pode ser anulada — ele falou. — Mas só se o desvio do dinheiro for comprovado antes do prazo. E só se quem desviou assumir.
Renato ergueu o olhar. O prato à sua frente continuava vazio. Dalva cortou um pedaço pequeno de carne e mastigou devagar, esperando. Leandro respirou fundo, pronto para falar. Vera mordeu o lábio. Márcia não desgrudou os olhos do advogado. O cheiro da comida esfriava na mesa, mas ninguém se mexia.
