Dalva sentou no banco do quintal com as mãos quietas no colo. Márcia parou na porta dos fundos segurando a lata de costura que achou no armário. O sol da tarde batia forte na parede amarela, mas o ar parecia mais pesado que de manhã.
A fita dentro da lata
Márcia abriu a lata velha de biscoito. Dentro tinha carretéis de linha, agulhas enferrujadas e uma fita cassete amarrada com um barbante a uma chave pequena e marrom de ferrugem. Ela puxou a fita devagar, como se tivesse medo de quebrar algo.
— Mãe, isso aqui era seu?
Dalva olhou para a fita sem surpresa. Respirou fundo antes de responder.
— Era. Guardei faz tempo.
O que o pai de Márcia fez
Caio apareceu no portão lateral, ainda de terno do escritório. Vera saiu logo atrás, carregando dois copos de água. Ninguém disse nada por um tempo. Dalva pegou a fita das mãos da filha e começou a falar baixo.
Ela contou que o pai de Márcia dirigia bêbado na noite do acidente. O irmão de Caio morreu no cruzamento da rua da Mooca. O homem ameaçou contar que Caio estava no carro também se o romance dos dois continuasse. Dalva pagou o silêncio e afastou a filha para proteger todo mundo.
Márcia sentiu o chão do quintal tremer por baixo dos pés.
A senhora salvou meu coração de uma verdade e acabou quebrando ele com uma mentira.
Dalva não respondeu. Só ficou olhando para a chave enferrujada que Márcia ainda segurava.
O que Caio decide agora
Caio deu um passo à frente. Disse que ia deixar a construtora e ficar no bairro. Não pediu nada de Márcia, só falou que a verdade tinha demorado demais. Vera ficou em silêncio, mexendo no copo de água. Ela pensou em quantas vezes tinha decidido pela mãe achando que era proteção.
Dalva levantou devagar. Falou que não ia morar com nenhum deles, mas também não ia sumir de novo. Márcia guardou a fita no bolso da calça. O sol já estava mais baixo, pintando tudo de laranja.
Os quatro ficaram ali parados, sem saber direito o que dizer depois. A chave enferrujada ainda estava na mão de Márcia, quente do sol.
