Dona Lúcia parou na porta do escritório de Otávio e sentiu o cheiro de papel velho misturado com café requentado. A pasta marrom sobre a mesa chamava atenção, mas ela ainda não sabia que dentro dela estavam os recibos que mudariam tudo o que o filho acreditava sobre a própria vida. Só no fim daquela tarde é que o peso real daquele dinheiro apareceria.
A pasta que Otávio guardou
Otávio abriu a pasta sem pressa. Os recibos estavam amarelados nas bordas, mas os números ainda davam para ler. Lúcia reconheceu o valor da venda do apartamento que ela tinha em Santana. Rafael ficou de pé ao lado da janela, olhando a rua lá embaixo sem falar nada por um minuto.
— Você guardou isso todo esse tempo — disse ela, baixinho.
Otávio assentiu. — Henrique sempre contou que começou do zero. Eu nunca corrigi porque você pediu silêncio. Mas chega de ficar protegendo ele de uma coisa que ele mesmo causou.
O que o dinheiro custou
Lúcia sentiu o estômago apertar. Ela tinha vendido o único bem que possuía para cobrir as dívidas do primeiro restaurante do filho, anos antes. O dinheiro passou pelas mãos de Otávio porque Henrique não aceitaria ajuda direta da mãe. Ela nunca tinha contado a ninguém além dele.
Rafael virou-se da janela. — Ele precisa saber que não foi do zero. Alguém ficou abaixo de zero por causa dele.
Ele diz que começou do zero porque nunca soube quem ficou abaixo de zero por ele.
Lúcia olhou para os recibos. A voz saiu firme, mesmo com o cansaço. — Pode contar. Ele tem o direito de saber. Só não quero que usem isso para humilhar ele na frente de gente.
O acordo que ela impôs
Otávio fechou a pasta devagar. — Então está decidido. Amanhã eu falo com ele. Sem plateia, sem escândalo. Mas ele vai ter que encarar o que custou a ascensão dele.
Lúcia concordou com a cabeça. No caminho para fora, Rafael pegou o celular e viu uma mensagem de Camila perguntando se ele estava livre para conversar. Lúcia notou o olhar dele mudar por um segundo, mas não perguntou. O anel que ela tinha deixado na casa de Henrique ainda estava por resolver, e isso também ia bater na porta em breve.
