Marta acordou antes do amanhecer no ateliê improvisado da casa no Bixiga. A máquina estava desligada, mas ela costurava à mão a última parte do vestido azul profundo. O que ela ainda não sabia era que a linha que usava naquela madrugada ia mudar tudo na manhã seguinte.
A etiqueta com seu nome
O tecido azul escuro brilhava baixo na luz do abajur. Marta passou a agulha devagar, prendendo uma etiqueta branca pequena no pescoço interno. Hoje não estou costurando um vestido; estou costurando meu nome de volta, pensou enquanto puxava o fio. O cheiro de café frio que tinha esquecido na mesa misturava com o de linha nova.
Clara apareceu na porta do quarto, câmera do celular já ligada. “Mãe, deixa eu filmar isso.” Marta só assentiu, sem parar a costura. O vídeo ia mostrar o momento em que o vestido finalmente tinha dono.
O que Gabriel explicou
Gabriel chegou por volta das cinco, com dois pães na mão. Ele parou na entrada e observou o vestido. “Eu rompi com a Bianca há quatro anos. O cartão que você viu era de uma empresa antiga que eu já vendi.” Marta continuou costurando sem olhar para ele. “Por que você não falou isso antes?”
Gabriel sentou no banco ao lado. “Porque eu sabia que ia soar como desculpa. Mas o espaço na seleção é meu. Não dela.” Marta finalizou o nó da etiqueta e cortou o fio com a tesoura pequena. O silêncio entre eles era pesado, mas não hostil.
A manhã da apresentação
Às nove da manhã a modelo vestiu a peça no salão pequeno que Gabriel tinha alugado. Marta ajustou o zíper nas costas e verificou as laterais. Tudo parecia firme. Clara filmava do canto. Gabriel acenou para os avaliadores que chegavam.
A modelo deu dois passos e parou. Um som fino de rasgo veio da lateral esquerda. A costura se abriu devagar e um carretel de linha fina rolou pelo chão de madeira. A linha não era a que Marta tinha usado. Alguém a tinha trocado durante a madrugada.
Marta olhou para o rasgo e sentiu o chão sumir por um segundo.
Ela se aproximou da modelo, pegou a lateral rasgada nas mãos e pensou rápido. Em vez de esconder, ela puxou o tecido de um jeito que o rasgo virasse uma fenda lateral intencional. A modelo continuou andando. Os avaliadores não entenderam o que tinha acontecido, mas continuaram olhando.
