Maurício parou o carro na garagem do prédio e o celular caiu no chão de concreto. A tela rachada mostrou uma mensagem antiga de Nando para Vanessa. Ele leu de novo, sem acreditar que o amigo sabia dos pagamentos de Dona Lúcia o tempo todo. O que ele ainda não sabia era que o pior daquela noite viria depois, quando Nando tentasse explicar tudo.
O celular rachado no chão
Maurício pegou o aparelho e subiu para o apartamento. A cabeça latejava. Ele ligou para Nando e pediu para o amigo descer até a garagem. Vanessa, que tinha voltado mais cedo, entrou no carro dela e ficou parada, com o motor desligado, ouvindo tudo do escuro.
Nando apareceu em cinco minutos. Olhou para o celular na mão de Maurício e já entendeu.
Você era meu amigo e deixou todo mundo comprar meu silêncio sem nem me perguntar.
Nando deu dois passos para trás. Disse que guardou o segredo porque achava que Maurício ia desmoronar se soubesse. Falou baixo, como quem repete a mesma frase para si mesmo há meses.
A conversa que Nando não queria ter
Maurício encostou no carro. Perguntou por que Nando nunca falou nada, nem quando viu Vanessa recebendo o dinheiro mês após mês. Nando respondeu que tinha medo. Medo de perder o único amigo que ainda o escutava de verdade.
Do banco de trás, Vanessa apertou o volante. O coração batia forte. Ela via o reflexo dos dois no retrovisor e sabia que, se Nando contasse mais, seu segredo acabava ali.
Nando respirou fundo. Disse que Vanessa recusou aumentar o pagamento meses antes. Falou que ela ameaçou deixar Maurício de qualquer jeito, mesmo sem o dinheiro extra de Dona Lúcia. Maurício ficou em silêncio. O celular rachado ainda estava na mão dele.
Vanessa sentiu o ar da garagem gelado no rosto. Pela primeira vez, pensou que talvez precisasse contar a verdade antes que alguém contasse por ela. O nome de Helena veio à cabeça, junto com a carta que Maurício guardava na gaveta.
