Dalva apertava a cópia da procuração contra o peito enquanto o vídeo dos filhos rodava no celular. O quarto da pensão era pequeno, com um espelho coberto por lençol no canto. Ela tinha recebido os documentos da venda de forma anônima e decidido sumir para entender tudo. Só depois é que o resto faria sentido.
A pensão perto da rodoviária
O lugar cheirava a comida pronta e sabão em pó. Dalva tinha deixado a casa na Mooca depois de ver a assinatura falsificada. Agora via os quatro na tela, discutindo sem parar. Vera falava alto, Leandro respondia rápido. Renato tentava controlar a conversa como sempre.
Ela parou o vídeo e respirou fundo. Não ia mais consertar as coisas por eles. Queria só descobrir quem tinha levado o dinheiro. O lençol no espelho balançava com o vento da janela aberta.
O que a gravação mostrou
No áudio, Márcia mencionou o extrato que Caio mandara. Renato desviou o olhar. Leandro cobrou explicações sobre a conta. Dalva reconheceu o tom de cada um, as pausas que ela mesma ensinara a usar quando a verdade doía. Renato disse que ia resolver tudo sozinho.
Eu conheço cada mentira dos meus filhos porque fui eu quem ensinou todos eles a esconder a dor.
Dalva repetiu a frase baixinho. O vídeo parou. Ela pegou o comprovante que viera junto com os papéis e virou do verso.
A anotação no comprovante
A letra era de Renato. Mostrava a transferência do adiantamento direto para a conta da empresa dele. Dalva sentiu o peso na mão. Não era Vera quem tinha levado tudo. Era o filho que ela sempre defendera. A pensão ficava quieta, só o barulho da rua lá fora.
Ela guardou a procuração de novo. Os filhos achavam que ela estava em perigo. Renato procurava o celular dela. Dalva sabia que não ia voltar até ter certeza de tudo. No quarto de Leandro, uma caixa de ferramentas ainda guardava mais papéis que ninguém tinha visto.
